Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Gustavo T. Falleiros gustavofalleiros.df@dabr.com.br
postado em 15/10/2016 00:00
Em 45 ou 33 rotações

Quando o presidente bossa-nova anunciou a construção de Brasília, houve um certo chiado. Suspeitava-se que o deslocamento de poder prejudicaria a produção cultural do Rio, o que não ocorreu no fim das contas. Mas o receio tinha lá seus motivos, pois era muito sedutora a ideia de uma cidade novinha em folha, virgem de imagens e sons. Uma janela para o futuro se abria, e portais desse gênero costumam não durar.

Muitos músicos captaram a mensagem e quiseram para si uma lufada de novidade. Só isso explica a profusão de discos com Brasília na capa. Para escrever esta crônica, fiz uma lista de 15 títulos. Soube que os DJs do coletivo Criolina (Pezão, Ops e Barata) foram além e levantaram 28 bolachões com a temática. O acervo deu origem à exposição Disco Piloto: Brasília nas capas de vinil, que ficou em cartaz até recentemente na galeria DeCurators (412 Norte).

Caso clássico é o de Anisio Silva, o cantor de bolero, que teve um timing perfeito ao lançar o disco homônimo de 1960, pela Odeon. Afastado momentaneamente dos palcos por questões de saúde, Anisio queria um retorno em grande estilo. E as coisas deram certo para ele: amigo de JK, foi convidado para cantar na inauguração da capital. A visita rendeu belas fotos com a arquitetura de Niemeyer ao fundo, que acabaram ilustrando o LP. Naquele ano, foi o artista brasileiro de maior sucesso.

A onda Brasília teve um empurrãozinho do Estado. Essa é a história por trás do ótimo Brasília Rítmos ; Rítmos do Brasil (com acento mesmo), de 1959. Trata-se de um grupo arregimentado por Sivuca para cumprir a 2; Caravana Oficial da Música Popular Brasileira na Europa. Por óbvio, o disco não traz imagens de Brasília no encarte, mas exemplifica essa vontade de mostrar ao mundo um país renovado, encontro de tradição e modernidade. As caravanas foram criadas pelo compositor Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga e deputado federal à época. Sivuca entregou uma obra melhor que a encomenda, com muito choro, baião e samba.

Agora, percebam a ironia: em 1962, os Cariocas lançaram em compacto a bossa Não vou pra Brasília, de Billy Blanco. São desaforados os versos: ;Eu não sou índio nem nada / Não tenho orelha furada (...) / Não vou, não vou pra Brasília / Nem eu nem minha família / Mesmo que seja pra ficar cheio da grana;. Que é isso, doutor? E não é que Billy Blanco deixou prole na capital? Foi um lapso desse senhorzinho tão bacana, falecido em 2011.

Para encerrar em alta rotação, gostaria de mencionar a segunda capa do LP Brazilliance, de Laurindo Almeida e Bud Shank. Explico: esse disco saiu em 1955 (antes de Brasília, portanto) com uma estampa genérica. Na reedição americana, o designer achou por bem criar uma arte misturando Palácio da Alvorada com calçadão de Copacabana. Dizem que é o elo perdido da bossa nova, porque veio antes da Canção do amor demais (1958), de Elizete Cardoso, Tom e Vinicius, e antecipa ideias do clássico Getz/Gilberto (1964). O lado B fecha com uma versão de Baião, de Teixeira e Gonzagão, que merecia um monumento na Praça dos Três Poderes.




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