Questão de cidadania

Questão de cidadania

No Dia do Professor, o Correio publica a primeira reportagem, de uma série de três, sobre o árduo cotidiano dos educadores de artes e aborda a importância da disciplina no currículo escolar e na formação educacional

Diego Ponce de Leon
postado em 15/10/2016 00:00





Na pequena Taquara, na zona rural de Planaltina, uma adolescente cega, Luana, faz questão de participar do grupo de teatro mantido pela professora de artes que estampa a foto desta página. Ali, Luana se sente confiante. Em Taguatinga, uma aluna se descobre artista plástica a partir do contato com a aula de artes. Em São Sebastião, um jovem oriundo de uma família de pais analfabetos revela o amor pelo cinema para a educadora de artes. Hoje, por motivação daquela professora, ele é cineasta. No Lago Norte, um ex-aluno esbarra com a antiga professora de artes. Ele trabalha no caixa de um supermercado. Ao avistar a professora, diz sorrindo: ;Queria te agradecer. Eu mal falava com as pessoas, de tão tímido. Foi a senhora quem me ajudou a vencer essa barreira. Agora, faço questão de cumprimentar cada cliente que passa;.

Histórias de vidas transformadas a partir do ensino de artes na rede pública do Distrito Federal. Ao todo, dos 23 mil professores pertencentes ao quadro docente da Secretaria de Educação, 968 se dedicam às artes. Educadores que fazem a diferença na vida dos 470 mil alunos matriculados em escolas públicas, apesar de um cotidiano árduo, de um apoio limitado e de uma alegação que ainda define o ensino de artes como coadjuvante.

A partir de hoje, neste Dia do Professor, o Correio destaca e reverencia as jornadas de alunos e mestres que ratificam a importância das artes no currículo escolar, na formação intelectual e no exercício da cidadania.

;A bússola;
;Sou uma feroz defensora da manutenção do ensino de artes na educação brasileira;, afirma categoricamente Ana Mae Barbosa, a primeira doutora em arte-educação no Brasil, e referência máxima no ensino de artes nas escolas. Em entrevista à reportagem, a professora de 80 anos enfatiza a relevância da arte na melhora da nossa ;capacidade de estabelecer relações de qualquer natureza, racional ou emotiva; e acrescenta ainda que o contato com com as pedagogias da arte ;ajuda a desenvolver a gestualidade, a expressão, a comunicação e o processo criador de cada indivíduo;.

Responsável pela ;proposta triangular; (abordagem integrada do fazer artístico, da análise de obras e da história da arte), que revolucionou o ensino de artes na década de 1980, Ana Mae critica um país ;disposto a gastar mais com prisão do que com educação;: ;Tivemos apenas três momentos quando a arte foi tão importante quanto as demais matérias. Com um projeto de educação proposto por Rui Barbosa, com a reforma de ensino promovida por Fernando de Azevedo no Distrito Federal, ainda no Rio de Janeiro (entre 1927 e 1930), e, por último, com o trabalho de Paulo Freire e (Mário Sérgio) Cortella no governo Erundina, em São Paulo. Um período estimulante para todos nós. Mas somente nessas três vezes. Não é uma pobreza?;, indaga a docente nascida no Rio de Janeiro, cujo primeiro trabalho como professora se deu na Universidade de Brasília (UnB), em 1965.

Na recém-inaugurada capital federal, ela trabalhou diretamente com Alcides da Rocha Miranda, cofundador da UnB e primeiro diretor da Escola de Arquitetura e Belas Artes. ;Morei na Colina e ajudei a montar e a idealizar uma escola de artes dentro da universidade. Pena que fui embora antes de vê-la funcionando;. A jornada acadêmica a levou para a Universidade de São Paulo (USP) por 26 anos, onde ainda orienta teses de doutorado. Na trajetória, conheceu como poucos a realidade do ensino de artes, escreveu obras de referência na área e testemunhou a falta de protagonismo da disciplina.

Nem por isso ela perde as esperanças. ;Eterna otimista;, Ana Mae elogia os professores de artes e nos convida a celebrá-los: ;O fardo que pesa sobre o professor de artes, para tristeza dos pessimistas, não o desencoraja, mas o estimula. Cada vez mais, a bússola do professor tem sido o interesse do aluno, o que é importantíssimo. Acredito nos nossos professores da rede pública;.

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