Música nas ruas

Música nas ruas

Estudo divulgado pela Ancine demonstra queda brusca de audiência da tevê aberta nos últimos anos, mas busca caminhos para se reinventar. A RedeTV! teve um aumento de 11% em comparação com janeiro e maio de 2015

Adriana Izel Rebeca Oliveira
postado em 18/10/2016 00:00
 (foto:  Lucas Lima/UOL/Divulgação)
(foto: Lucas Lima/UOL/Divulgação)





Depois de um dia cansativo, chegar em casa, ligar a tevê nos canais abertos, pegar o controle e zapear entre um canal e outro, torcer para que o programa preferido seja exibido... Tudo indica que essa forma de consumir conteúdo está com os dias contados. No último dia 7, um estudo divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) constatou o que muita gente já imaginava ; a televisão já não é a mesma. A participação da tevê aberta no setor audiovisual encolheu de 63,7% para 41,5% ; uma retração de mais 20 pontos percentuais. Isso significa que a renda gerada pelas emissoras exibidas de forma gratuita diminuiu mais de 30%.

O estudo fez um recorte entre os anos 2007 e 2014, quando os serviços de streaming ainda não estavam tão populares quanto hoje. Vale, então, concluir que os números que atestam uma preocupante crise na tevê aberta poderiam ser piores. Um dos maiores analistas da tevê brasileira, o jornalista Maurício Stycer, blogueiro do site Uol e autor do livro Adeus, controle remoto (que será lançado na Bienal do Livro de Brasília no próximo dia 27) acredita que o aumento da oferta de meios para consumir audiovisual somada a uma melhora no nível socioeconômico podem ser os responsáveis pelo tempo de vacas magras pelo qual a tevê aberta passa.

Ainda maior rival, a tevê paga passou por um bom momento entre 2008 e 2012, com crescimento de 38%, segundo o Ibope. Segundo a Ancine, pela primeira vez as atividades de tevê a cabo são responsáveis por mais de 50% de toda receita do mercado. Esse movimento teve um freio no ano passado, quando as operadoras perderam 500 mil assinantes. Ainda assim, quase 20 milhões de lares têm o conteúdo diferenciado, personalizável e com imagem de melhor qualidade. ;O cliente foi seduzido pela maior oferta;, explica Stycer. Outro concorrente tão potente quanto a tevê a cabo são os serviços de streaming. Com 4 milhões de usuários no Brasil, o principal deles, a Netflix, exibiu, no início do ano, renda que já ultrapassa a do SBT (R$ 1,1 bilhão, de acordo com o jornalista Ricardo Feltrin).


;Há um cansaço por parte do público de assistir a muitos conteúdos que a tevê aberta ainda investe porque são fórmulas que dominam, como programas de auditório e telenovelas. São hábitos arraigados e ligados à história da tevê e do rádio. O brasileiro gosta de novela, mais do que em outros lugares do mundo. Mas me parece evidente que se você assiste uma boa série de 15 ou 20 episódios e ela acaba, e se procura outras, dificilmente voltará a sentar no sofá e ver uma novela;, acredita Maurício, embora reconheça a rentabilidade desse tipo de atração.

Modelo
Para o especialista, o futuro recai sobre um modelo segmentado, algo difícil de se trabalhar com um público tão amplo quanto o que assiste aos canais abertos. ;Acredito que eles vão mudar para canais onde se escolhe o que quer ver e na hora que quer ver. O público montando a sua grade. Então, esse tipo de tevê que passa de tudo um pouco fica em desvantagem;, sentencia. Entretanto, ele destaca que mais da metade dos lares brasileiros ainda não tem acesso a tevê a cabo.

Curiosamente, a audiência dos canais abertos pode ter diminuído justamente por conta do comportamento agressivo em busca de mais audiência. Na visão de Stycer, os canais que enganam o público em buscas de mais números no Ibope estão permitindo que o meio não se retroalimente. ;Há muita gente que faz qualquer negócio pela audiência, para revertê-la em publicidade. Isso me incomoda. O modelo é esse, tudo bem, mas quando se leva um programa ao ar é preciso ter uma ideia do porque se está fazendo. Se a resposta é apenas por audiência, nascem produtos ruins, sensacionalistas, gente perdida em relação ao que fazer. O público não é burro;, critica.

Outro ponto negativo é a falta de conexão com a realidade e com novas pautas contemporâneas, como o empoderamento feminino, a representatividade negra e as relações homoafetivas. ;A tevê é uma construção pública, tem a responsabilidade de tentar avançar nas questões onde tem se atraso e pensamentos retrógrados. Não podemos alimentar preconceitos, pelo contrário. A responsabilidade social dos canais ainda é muito tímida;, emenda o jornalista.

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