#nobodyishaiti

#nobodyishaiti

Anderson Costolli andersoncostolli.df@dabr.com.br
postado em 18/10/2016 00:00
Toda vida tem valor, isso é fato. Ou pelo menos é o que se diz por aí. O furacão Matthew destroçou milhares de famílias na América Central. Destruiu casas, sonhos e vidas, é claro. De acordo com as autoridades locais, o número de mortos no país caribenho passa de 800, com possibilidade de se estender a qualquer momento, de acordo com o que vai sendo encontrado debaixo dos escombros, cobertos de lama. No último sábado, na Europa, foran relembrados os três meses do atentado que provocou 86 mortes, em Nice, Sul da França. Na época, um caminhão atropelou diversas pessoas que assistiam à queima de fogos em comemoração ao 14 de julho, Dia da Queda da Bastilha. Lá também se foram as vidas de pais e mães de família. O sábado ficou marcado por uma homenagem às vítimas, com direito à presença do presidente francês, François Hollande. Não que não mereçam o tributo, longe de mim dizer isso. Mas e o Haiti? Na internet, campanhas e mais campanhas de #somostodosnice, #prayerfornice, #prayerforfrance. E cadê o #somostodoshaiti? Ninguém é Haiti? Ninguém se importa com aquelas quase mil histórias? Geralmente, quando não há uma grande comoção mundo afora, as pessoas culpam a grande mídia. Dizem que os jornais e emissoras de tevê não dão o devido espaço. Que não falam sobre as tragédias que atingem os mais pobres. Não foi o caso. Diversas reportagens foram ao ar. Alguns podem argumentar que o único motivo foi porque o furacão Mattew estava ali, na cola da Flórida e das carolinas do Norte e do Sul, na encosta dos poderosos Estados Unidos da América. Entretanto, foi noticiado, sim. Com drama, com peso e com muita apuração dos fatos. O que faltou, de verdade, foi a solidariedade. Se esses 800 mortos tivessem sido registrados na Flórida, em um dos parques pomposos da Disney, imagine o estardalhaço que não teria sido feito nas redes sociais. #somostodosflórida, #prayerfororlando. Aliás, essa hashtag já foi viralizada, lembram? No caso do atentado à boate Pulse, onde um homem entrou e abriu fogo, matando 49 pessoas. E os 842 ali do Caribe, nada. O Haiti tem uma história sofrida. É o país mais pobre das américas. Sofrido e marcado pela escravidão, que por tanto tempo açoitou a pele daqueles negros e negras, que ainda hoje vivem mergulhados no rescaldo de uma civilização extremamente racista. A dura verdade é que são dois pesos, duas medidas. E isso não é culpa da grande mídia. A culpa é nossa, que não adotamos e não disseminamos a tal campanha na web. Ao digitar Haiti no campo de busca do Twitter, por exemplo, aparece #hurricanematthew e, no máximo, #haiti. Nada de %u201Cprayerfor%u201D ou %u201Csomostodos%u201D. Coitados... Ao que tudo indica, #nobodyishaiti.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação