Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 18/10/2016 00:00
As cigarras são heavy-metal

Estava fazendo tai chi chuan e ouvindo o som metálico, rascante e estridente das cigarras. De repente, me bateu a impressão de que era mesmo uma orquestra de música concreta ao ar livre, a palo seco, sob o sol devastador. O canto das cigarras é puro João Cabral de Melo Neto: ;Se diz a palo seco/o cante sem guitarra;/ o cante sem; o cante;/ o cante sem mais nada;/ se diz a palo seco/ a esse cante despido:/ ao cante que se canta/ sob o silêncio a pino;.

Elas haviam sumido, mas resolveram voltar talvez em protesto pelo fato de João Cabral nunca ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura: ;O cante a palo seco é o cante mais só;/ é cantar em um deserto/devassado pelo sol;.

As cigarras vivem muito tempo embaixo da terra e, nesta época do ano, saem para cumprir o ciclo da reprodução. Os músicos da orquestra a palo seco são os machos, que fazem uma barulheira descomunal para atrair as fêmeas, conseguindo a façanha de propagar o som no silêncio aberto da cidade espacial.

O seu canto é, na verdade, um anticanto, um cante, pois o som não é emitido pela boca; é produzido por membranas do abdome. As cigarras são os músicos concretos e heavy-metal do cerrado, poderiam tocar no Teatro Nacional ou no Porão do Rock.

Com sua textura áspera e suas nervuras, elas são insetos híbridos de folha e casca de árvores com asas. O cante a palo seco das cigarras é torto, desgrenhado e crispado e parece uma tradução musical das árvores do cerrado. A música a céu aberto das cigarras é a trilha sonora perfeita para uma cidade metafísica, espacial, moderna, futurista, mas plantada na natureza agreste. Ela produz um estranhamento, nos lança em outra dimensão, nos mantêm em estado de alerta com as suas sirenes sob o sol a pino.

Ouço gente reclamar das cigarras, no entanto, de minha parte, cada vez essa música me parece mais interessante como um traço de singularidade da capital moderna, casada com os sertões bravos, como disse Gilberto Freyre. Por isso, resolvi conversar com o meu amigo e músico Guilherme Vaz, um dos mais inventivos e premiados autores de trilhas sonoras para cinema no Brasil.

Guilherme concorda que as cigarras são os músicos de vanguarda do sertão. Elas produzem a estranheza própria de toda obra verdadeiramente de arte, levando a uma percepção incomum, extrassensorial, metafísica.

No início da década de 1960, na UnB, o maestro Rogério Duprat, que mais tarde se tornaria um dos arranjadores da Tropicália, promoveu experiências de música concreta, incorporando o som das bolas de pingue-pongue, areia na mesa, madeira atritada, lembra Guilherme.

Essas experimentações levaram Nelson Pereira dos Santos, à época, professor de cinema do Instituto Central de Artes da UnB, a colocar um rascante ruído de carro de boi como trilha sonora do filme Vidas secas, clássico do Cinema Novo.

Portanto, nós, que consumimos tanto lixo sonoro, comercial e industrial, afinemos os nossos ouvidos e afiemos os nossos sentidos para aprender a apreciar a beleza dessa orquestra ecológica do cerrado.





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