No terreiro do Zeca Pagodinho

No terreiro do Zeca Pagodinho

Cantor lança DVD e CD com um time de convidados especiais que reuniu Maria Bethânia, João Bosco, Maria Rita, Zélia Duncan, entre outros

Irlam Rocha Lima Enviado especial
postado em 18/10/2016 00:00
 (foto: Marcos Fernandes/Divulgação)
(foto: Marcos Fernandes/Divulgação)




Xerém (RJ) ;
Zeca Pagodinho, há alguns anos, o nome mais destacado do samba, é bem mais do que isso. Agregador e solidário esse carioca do subúrbio do Irajá cultiva também o sentimento de gratidão. Ele não perde oportunidade de reverenciar Beth Carvalho, responsável por lançá-lo como compositor, ao gravar Camarão que dorme a onda leva, na primeira metade da década de 1980.

No auge da fama e do sucesso, está sempre atento ao trabalho de sambistas ainda pouco conhecidos, aos quais busca abrir espaço nos projetos que realiza, com a intenção de projetá-los. Zeca cultiva a presença de companheiros de ofício, que ocupam patamar semelhante ao dele.

Se tornaram uma tradição as concorridas rodas de samba que ele promove no sítio de sua propriedade em Xerém, na Baixada Fluminense, onde reúne amigos ; famosos ou não ;, para muito batuque e cantoria, regados a cerveja e uma boa comida, que tanto pode ser feijoada, churrasco ou cabritada. Em três delas, houve o registro de O Quintal do Pagodinho.

A terceira edição, em formato de DVD e álbum duplo, dedicada a Dona Ivone Lara, está sendo lançada pela Universal Music. Nas gravações, em junho último, estiveram reunidos artistas consagrados, mestres sambistas, bambas que aspiram o estrelato e até cantores mais identificados com o segmento pop.

A diversidade, em termos de intérpretes, porém, não chegou a ser prejudicial à unidade desse Quintal do Pagodinho, que traz o entusiasmo e a qualidade do repertório como marcas registradas. São 30 faixas; entre sambas inéditos, alguns pouco conhecidos e outros considerados clássicos.

Mesmo avesso a entrevistas, Zeca foi até bem falante na hora de fazer comentários sobre o novo Quintal, no encontro com jornalistas em seu sítio. À vontade entre sambistas que costumam participar das rodas de Xerém, com uma cerveja sempre por perto, acompanhada de torresminhos de tira-gosto, mostrou-se grato aos convidados do projeto. ;Como eu poderia imaginar ter Maria Bethânia aqui nas gravações desse DVD?;

Ele mesmo respondeu. ;Pois ela não só veio aqui, como demonstrou estar feliz com a gente. Foi a primeira vez que cantei com ela. Uma honra!”. Os dois fizeram duo em Sonho meu (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho). ;Os participantes do Quintal se renovam. Desta vez, tive o prazer de ter Moacyr Luz, que não havia tomado parte dos outros, e me presenteou com a interpretação de Cabô, meu pai. O que dizer da presença de Paulinho da Viola, que fecha o DVD cantando Coração leviano e Foi um rio que passou em minha vida!”

É grande a lista de famosos entre os intérpretes. Vai de João Bosco (Kid Cavaquinho, dele e Aldir Blanc) a Maria Rita (Ai que Saudade do meu amor (Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz), passando por Zeca Baleiro com a autoral Samba do aproach, Luiz Melodia (Poeta do morro), Benito de Paula (Retalho de cetim, com a participação de Xande de Pilares), Zélia Duncan (Jura, de Sinhô), Roberta Sá (Água da minha sede/Dudu Nobre e Roque Ferreira), Diogo Nogueira (Lama nas ruas/ Almir Guineto e Zeca Pagodinho), Marcelo D2 (Delegado Chico Palha/ Nilton Campolino e Tio Hélio) e Marcos Valle (Nas asas da paixão, parceria com Luiz Carlos da Vila).



Compromisso
Mestres do ofício, os sambistas estão representados no DVD por Nelson Sargento (Encanto da paisagem), Wilson Moreira (Judia de mim), Wilson das Neves (O samba é meu dom), Neguinho da Beija-Flor (O Neguinho e a senhorita), Aluízio Machado (Bum, bum, paticumbum, progurundum), Marquinho PQD (Ogum) e Fundo de Quintal (Vida da minha vida, de Moacyr Luz).

Sobre a inclusão de sambas de compositores pouco divulgados em seus discos, Zeca deixa claro que é um compromisso para ele. ;Tem muita gente boa que não consegue chegar à mídia. Eles me procuram, ouço o que têm para me mostrar e se bate no meu coração, eu separo. Posso até não gravar no disco que estou fazendo naquele momento, mas guardo para um próximo;.

No Quintal do Zeca 3, ele fez diferente: deu vez a esses compositores para eles mesmos cantarem seus sambas. Pedrinho da Flor reaparece com Menor abandonado; Claudenir emplacou Ser humano; Marquinho China trouxe Ter compaixão; Claudinho Guimarães ataca de Quando a gira girou, dele e Serginho Mediti. Agradecido, Pedrinho da Flor enaltece: ;O Zeca é uma estrela muito forte, que joga sua luz sobre compositores e sambistas de talento, que estão aí escondidos. Fazer parte do Quintal do Pagodinho é uma benção para nós;.

Mas o Quintal não seria um projeto de Zeca, sem o envolvimento direto dele. Além de ser criador, de alguns dos sambas, faz duo com Bethânia, solta voz cheia de malandragem Toda hora e em Nunca mais vou jurar (um dos melhores momentos do DVD), ao lado de Arlindo Cruz e Marcelinho Moreira. Na abertura da letra diz: ;Eu jurei que nunca mais ia beber/ Eu jurei que nunca mais ia fumar/ Mas nem os santos acreditam em minha jura/Por isso eu juro, nunca mais vou jurar...;

Um grupo de músicos de responsa é responsável pelos acompanhamentos em O quintal do Pagodinho: Paulão 7 Cordas e Carlinhos 7 Cordas (violão), Mauro Diniz (cavaquinho), Marcílio Lopes (bandolim), Eduardo Neve (sax), Marcos Esguleba (tamborim), Jaguara (pandeiro), Beloba (tantã), entre outros. A direção musical é de Rildo Hora, responsável também pelo áudio; enquanto Joana Mazzucchelli assina a direção de vídeo.

O repórter viajou a convite da Universal Music



O Quintal do Pagodinho

DVD com 30 faixas e CD duplo, cada um com 14 faixas, e participação de vários convidados. Lançamento da Universal Music. Preços: DVD, 29,90; CDs 21,90 (cada um); kit com o DVD e os dois CDs, R$ 59,90.




Centenário do samba
;O samba já sofreu bastante e passou por vários ciclos. Felizmente, quando comemora o centenário, as coisas estão bem melhores. Hoje, tem muita gente com vontade de compor, e o que têm criado são sambas de qualidade. Alguns conseguem mais espaço para mostrar oque fazem, outros ainda precisam de oportunidade para isso;. Zeca Pagodinho

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