Papa abre diálogo

Papa abre diálogo

Francisco recebe o presidente Nicolás Maduro, e Vaticano anuncia conversas entre opositores e governistas a partir de domingo. Enviado da Santa Sé revela que encontro ocorreu em clima de respeito. Líder argentino defende saída de Caracas do Mercosul

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 25/10/2016 00:00
 (foto: Marcelo Garcia/AFP)
(foto: Marcelo Garcia/AFP)



Em nova demonstração da capacidade diplomática do Vaticano, o governo do presidente Nicolás Maduro e a oposição venezuelana concordaram em iniciar diálogos, no próximo domingo, na tentativa de encontrar uma saída para a crise política no país. A iniciativa teve a articulação de Emil Paul, núncio apostólico na Argentina e enviado da Santa Sé à Venezuela, e foi anunciada em meio à convocação de manifestações nacionais contra Maduro para amanhã. Em paralelo aos esforços para solucionar o impasse, o presidente da Argentina, Maurício Macri, manifestou preocupação com a violação dos direitos humanos e dos princípios democráticos no país. ;A declaração feita pelo Congresso foi muito contundente, isso nos aproxima cada vez mais de que a Venezuela, nesses termos, não pode ser parte do Mercosul e tem que receber a condenação de todas as nações americanas e do mundo inteiro;, afirmou, em pronunciamento ao lado do mandatário uruguaio, Tabaré Vázquez.

Para Macri, ;existem todas as condições; para que a cláusula democrática da Organização de Estados Americanos (OEA) seja acionada, o que pode ocasionar a suspensão da Venezuela do fórum. A observação do argentino e a confirmação do início dos diálogos ocorreram um dia depois de a Assembleia Nacional, controlada pela oposição, considerar que houve ;ruptura da ordem constitucional; e ;golpe de Estado;, após a suspensão do processo de referendo revogatório contra Maduro. Segundo o jornal El Universal, estudantes iniciaram manifestações em diversas partes do país. Em San Cristóbal, no departamento de Táchira, houve confronto com policiais, que chegaram a disparar para cima.

Em meio ao temor de nova onda de protestos violentos, a disposição para o diálogo alimenta esperanças de solução para a instabilidade do país. ;O objetivo do diálogo é a busca de acordos, a criação de um clima de confiança, a superação da discórdia e (a criação) de um mecanismo que garanta a convivência pacífica;, considerou o núncio Emil Paul.



Segundo o enviado da Santa Sé, os encontros com representantes do governo e da oposição ocorreram em clima de respeito e cordialidade. As partes voltarão a se reunir no fim do mês na ilha venezuelana de Margarita. Além de Paul, o diálogo será mediado pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e pelos ex-presidentes Leonel Fernández (República Dominicana) e Martín Torrijos (Panamá), além do ex-premiê espanhol José Luis Zapatero.

Paul se encontrou, na noite de domingo, com integrantes da Mesa de Unidade Democrática (MUD), a principal coalizão opositora do país. À imprensa, o presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, confirmou a reunião e manifestou disposição em cooperar com o diálogo. ;Este país não vai se matar. Tem de se entender nesta nação. Neste país, tem que se aceitar as regras da Constituição e do voto popular, que é o que tira e bota governos;, declarou. A pesar do gesto em favor de uma solução para a crise, Allup reiterou que Maduro exerce ;terrorismo de Estado; e que a Venezuela vive em uma ditadura não convencional.

Visita
Em paralelo às articulações em Caracas, o herdeiro político do falecido presidente Hugo Chávez foi recebido pelo papa Francisco no Vaticano. Na audiência privada, o pontífice incentivou o ;diálogo sincero e construtivo;, a fim de ;aliviar o sofrimento; das pessoas e promover ;a coesão social;. No Twitter, Maduro ;celebrou; a instalação dos diálogos ;pela paz e soberania;.

A movimentação da Santa Sé em meio à crise venezuelana ocorre depois de Francisco ter contribuído para a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba e para a negociações entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). ;A Santa Sé tem uma tradição diplomática centenária. Esse perfil é exercido em favor da humanidade em situações de conflito para que haja diálogo e paz;, explica o padre Denilson Geraldo, professor de direito canônico da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O estudioso recorda que Francisco, que é argentino, tem profundo conhecimento da realidade na América Latina. ;A escolha dele em enviar um representante possivelmente foi feita com conhecimento de causa;, observa.


HRW alerta para ;profunda crise humanitária;

Um relatório divulgado pela organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) adverte que a escassez de alimentos e de medicamentos na Venezuela configura uma ;profunda crise humanitária;. A entidade exorta países da região a exercerem pressão sobre o governo de Nicolás Maduro, a fim de que medidas imediatas sejam tomadas para responder à situação. ;O governo venezuelano tem se esforçado mais em negar que existe uma crise humanitária do que em trabalhar para resolvê-la;, acusa José Miguel Vivanco, diretor executivo da HRW para as Américas. O relatório aponta que o argumento usado por Caracas de que há uma ;guerra econômica; em curso serviu para que o governo tentasse justificar ;táticas autoritárias para intimidar e castigar críticos;.


A cronologia da crise

2012

7 de outubro

Hugo Chávez ganha as eleições presidenciais, com 55% dos votos.

10 de outubro
Nicolás Maduro é nomeado vice-presidente.

2013

10 de janeiro

Chávez não assume por problemas de saúde. Maduro é nomeado presidente designado.

5 de março
Hugo Chávez morre, Maduro assume a presidência interina.

14 de abril
Maduro ganhas as eleições nacionais, com 50,6% dos votos.

2014

Fevereiro-maio

Manifestações contra a insegurança e a escassez deixam 43 mortos.
2016

Janeiro

O Parlamento assume, a oposição consegue a maioria de dois terços.

9 de março
A oposição inicia o processo para um referendo revogatório.

26 de abril
O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) autoriza a coleta de assinaturas para pedir a ativação do referendo.

3 de maio
A oposição entrega 1,85 milhão de assinaturas a favor do referendo.

8 de junho

O CNE admite 1,3 milhão de firmas.

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