Tuberculose volta a matar no Distrito Federal

Tuberculose volta a matar no Distrito Federal

Tida como doença do passado, ela continua contaminando e matando no DF. Só este ano, a capital federal registrou 285 novos casos. Desafio é fazer com que o paciente não desista do tratamento, que é longo e exige disciplina

OTÁVIO AUGUSTO
postado em 31/10/2016 00:00
A tuberculose está associada a doenças do passado, mas não ficou para trás. Em uma década, o Distrito Federal registrou 4.407 casos do mal altamente contagioso, que exige tratamento longo e específico. Somente em 2016, ocorreram 285 novas infecções na cidade. Ceilândia e Taguatinga são as regiões administrativas que mais apresentam novos casos. Samambaia, Asa Norte e Sobradinho também se destacam nas estatísticas. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de alerta para ao mal, uma vez que a epidemia é ;mais grave do que se pensava;, segundo a entidade. No ano passado, a cada 100 mil habitantes, 13,4 tiveram tuberculose. Ao todo, 384 pessoas se contaminaram. Um entrave entre o diagnóstico precoce e a finalização do tratamento torna o cenário mais problemático.

No DF, a transmissão ; por via aérea ; ocorre mais entre homens na faixa etária entre 25 e 44 anos. De 2010 a agosto deste ano, 1.274 pessoas tiveram de ser hospitalizadas por complicações relacionadas à doença. O Executivo local garante que a Secretaria de Saúde está habilitada para o diagnóstico e o tratamento do mal, mas não sabe precisar quanto é gasto especificamente com a tuberculose. No DF, o Hospital Regional do Gama (HRG) é a referência no tratamento. A pasta não tem cálculos de quantas mortes ocorreram relacionadas a complicações da doença. Segundo o órgão, o percentual de cura chegou a 67% dos pacientes tratados em 2015. O abandono do tratamento atingiu 4,9%, conforme dados parciais coletados até a segunda semana de outubro.

Luís (nome fictício), 47 anos, é mecânico em São Sebastião. Há cinco meses, recebeu o diagnóstico de tuberculose. ;Estava tossindo muito. Não conseguia dormir direito há vários dias. Minha esposa foi quem levantou a hipótese;, conta. Após três coletas de secreção, o resultado deu positivo e o tratamento foi iniciado. ;Algumas pessoas da família estranharam um pouco. Até se afastaram. É uma doença antiga e o povo fica com medo;, comenta, sem querer se identificar por causa do preconceito. Ele garante que segue as recomendações médicas. ;Estou tomando os remédios certinho, mas é uma rotina complicada.;

A tuberculose tem cura e o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza, gratuitamente, o tratamento, que tem duração mínima de seis meses. Vigiar o doente para evitar o abandono das medicações ; basicamente com quatro drogas ; é um desafio severo para alcançar a cura, diante das dificuldades da atenção básica no DF e a escassez de profissionais na rede. O peso da pessoa determina a quantidade das drogas, tomadas mais de uma vez por dia. Uma pessoa de 50kg tem que ingerir duas cápsulas, três comprimidos e mais uma vitamina para ajudar o organismo a enfrentar o coquetel. Para um paciente de 70kg, o número sobe para oito unidades.

O principal sintoma é a tosse. Recomenda-se que, se ela persistir por três ou mais semanas, a pessoa procure um médico. A tosse pode ser acompanhada de cansaço, febre vespertina, sudorese noturna, perda de apetite, emagrecimento, hemoptóicos (escarro com estrias de sangue) e hemoptise (escarro de sangue). ;De imediato, temos que fazer o diagnóstico precoce e a busca ativa de casos. As chances de cura são altas, mas o problema é convencer a pessoa a tomar a medicação mesmo sem sentir nada;, frisa o especialista em pneumologia da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo de Melo Martins.

O relatório da OMS coloca o Brasil entre os 20 países com maior incidência do mal ; somente em 2015, foram 67.790 casos em todas as regiões e cerca de 4,6 mil mortes. Os números são suficientes para provar que a doença está tão ativa quanto esteve no século passado. A tuberculose é causada por uma bactéria, o bacilo de Koch, que na maioria dos casos se aloja nos pulmões e destrói o órgão aos poucos. Duas em cada cinco pessoas infectadas não são diagnosticadas e podem transmitir a doença. ;A tuberculose é uma doença endêmica (constante numa região) no DF. O bacilo está circulando na nossa comunidade;, alerta Ricardo Melo.



Mal dos poetas
A tuberculose dizimou grandes poetas românticos, como Castro Alves e Álvares de Azevedo, no Brasil, e John Keats e Lord Byron, na Europa. O escritor Nelson Rodrigues sobreviveu à doença nos anos 1930. Em dezembro de 1980, a doença saiu do pulmão e se espalhou, fragilizando o escritor. Ele morreu de complicações do mal.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação