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» Raquel Lima Especial para o Correio
postado em 31/10/2016 00:00
Visita à casa da infância
Harry Potter e a criança amaldiçoada é uma leitura difícil. Na epopeia em prosa de J.K. Rowling, a narrativa é ambientada logo após o epílogo de Harry Potter e as relíquias da morte, sétimo livro, lançado em 2007. O desafio das novas páginas traduzidas ao português é, antes de mais nada, o gênero. A criança amaldiçoada não é um romance, mas o roteiro de um espetáculo homônimo montado em Londres desde julho, como se sabe. O que talvez não seja público nem notório é que, neste formato, o festejado ritmo de J.K. perde uma ou duas rotações.

É possível reconhecê-la na lida com os personagens, no estilo, na fluidez, mas também percebe-se as outras mãos que assinam a obra: as de Jack Thorne e John Tiffany. Ambos são excelentes dramaturgos, agraciados com dezenas de prêmios na ribalta londrina, mas são um risco à intimidade há muito estabelecida entre a autora britânica e quem leu as mais de 3,5 mil páginas que escreveu e publicou, sozinha, sobre Harry Potter.

A criança amaldiçoada, que a Editora Rocco chancelou no Brasil como ;edição de ensaio;, é como uma visita àquela casa da infância, um passeio pela memória afetiva. E, como tal, pode evocar a sensação agridoce de ver um cômodo, antes gigante, perder dimensão. Assim é quando a autora, agora, revisita personagens idolatrados após 19 anos e, graças a um artefato mágico, em diversas janelas de tempo e espaço. É uma pena J.K. não assinar o livro sozinha, mas correr riscos é algo que a autora sempre fez. Tanto quanto não poupar nem personagens nem leitores. Traço este, aliás, indispensável a qualquer (boa) leitura difícil.

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