O campeão voltou

O campeão voltou

Clubes vítimas de tragédias aconselham cautela, mas há a boa notícia: Chape ficará com o título da Sul-Americana

MAÍRA NUNES PEDRO HENRIQUE GOMES*
postado em 04/12/2016 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)



A queda do avião com a equipe da Chapecoense, na Colômbia, reavivou lembranças guardadas há quase três décadas pelo peruano Juan José Jayo Legario. A menos de 3 mil quilômetros de distância do local do acidente que deixou 71 mortos e seis feridos, a aeronave Fokker F27 da Marinha peruana interrompia, com a mesma brutalidade, a trajetória de sucesso do Alianza Lima, que liderava o Campeonato Peruano de 1987. Juan José, atual técnico do clube, foi um dos jogadores que, aos 17 anos, assumiu a tarefa de reerguer o time após a perda de todo o elenco e a comissão técnica no desastre, assim como o desafio que terá pela frente o clube catarinense.

;São quase 30 anos e me lembro de tudo que se passou naquela tragédia;, conta Juan José ao Correio. ;Foi bastante difícil para todos. Eram muitos atletas jovens e alguns vinham se consagrando, representavam a esperança do nosso futebol;, recorda. Ainda garoto, Juan José viu a categoria da base assumir os compromissos do time principal, que contou com ajuda esportiva chilena. ;Os primeiros anos foram duros e o time custou bastante a se levantar. O Colo-Colo, do Chile, mandou quatro jogadores para poder formarmos um time competitivo; a Alianza também tinha muitos garotos para completar a equipe.;

Os reforços, porém, não conseguiram segurar a liderança no Campeonato Peruano até o fim da competição, e o título ficou com o Universitario de Deportes. Ainda assim, o clube apostou na base para os anos seguintes. Juan José estreou a carreira profissional de jogador no Alianza três anos após o acidente. O atacante Waldir Sáenz, maior goleador do clube até hoje, com 178 gols, foi revelado naquele período. Exatos 10 anos após a tragédia, o Alianza Lima voltava a levantar a taça do Campeonato Peruano. Atualmente, ela é 22 vezes campeã nacional.

Os heróis que tiveram a carreira interrompida na queda do avião no mar do pacífico, próximo a Chalaca de Ventanilla, a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional Jorge Chávez, naquele 7 de dezembro de 1987, são lembrados a cada ano pela Alianza Lima. O acidente, em que apenas o piloto Edilberto Villar Molina saiu vivo, completa 29 anos na quarta-feira. Para a data, estava prevista uma missa em memória aos acidentados. ;Vamos aproveitar para homenagear também as vítimas do voo da Chapecoense. Estamos muito próximos agora que passamos pelo mesmo drama;, solidariza-se Juan José.

No Brasil


O Brasil de Pelotas também passou por momentos difíceis após um acidente grave. Em janeiro de 2009, o ônibus que transportava a equipe do Rio Grande do Sul caiu de um barranco quando voltava para Pelotas (RS), depois de um amistoso. O clube perdeu dois jogadores: o atacante uruguaio Claudio Milar, ídolo da torcida, e o zagueiro Régis Gouveia Alves. Além deles, Giovani Guimarães, o preparador de goleiros, faleceu. Vinte pessoas ficaram feridas no acidente. O técnico Armando Desessards, por exemplo, ficou cerca de 40 dias internado e mais nove meses usando um colete lombar.

Tal como a Chapecoense, o Brasil de Pelotas recebeu uma série de promessas de ajuda diante da comoção nacional para conseguir continuar em atividade. No entanto, o presidente do clube à época, Hélder Lopes, revelou ao Correio que a maioria não se tornou realidade. ;Muitos clubes se colocaram à disposição para emprestar jogadores e não cumpriram. Ofereceram ajuda para se autopromover, mas isso não saiu do papel. Gostaria até de lembrar um ponto: que todas essas promessas de ajuda à Chapecoense sejam formalizadas porque, com o tempo, caem no esquecimento;, alertou Lopes. O ex-presidente do Xavante contou que apenas alguns clubes cederam atletas ao time. ;O Grêmio emprestou dois; o Internacional, um; o Lajeadense, um também. Empresários também levaram jogadores, mas nós pagamos os salários;, relembrou.

A Federação Gaúcha de Futebol auxiliou o clube com R$ 50 mil, mesmo valor dado pelo Clube dos 13. O governo do Rio Grande do Sul socorreu a equipe de Pelotas por meio de um patrocínio do Banrisul, banco estatal. Outro amparo veio do Botafogo ; no caso da Chapecoense, o clube disse que entrou em contato com o departamento de Marketing e Comunicação do time catarinense para oferecer outras formas de apoio, além das indicadas na nota encaminhada à CBF e empréstimo de jogadores. ;Com o Brasil de Pelotas, o Botafogo fez um jogo beneficente aqui, depois dos campeonatos estaduais, com a renda revertida para nós. Ajudou bastante;, disse Hélder.

"Muitos clubes se colocaram à disposição para emprestar jogadores e não cumpriram. Gostaria até de lembrar um ponto: que todas essas promessas de ajuda à Chapecoense sejam formalizadas porque, com o tempo, caem no esquecimento;

Hélder Lopes,
ex-presidente do Brasil de Pelotas

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