O gingado de Brasília

O gingado de Brasília

» Adriana Izel » Diego Ponce de Leon » Igor Silveira » Irlam Rocha Lima
postado em 04/12/2016 00:00
 (foto: Aruc/Divulgação
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(foto: Aruc/Divulgação )




Há 100 anos, Donga gravou Pelo telefone, uma composição dele em parceria com Mauro de Almeida que mudaria para sempre a história da música popular brasileira. Era o registro do primeiro daquele que se tornaria o mais original dos gêneros musicais brasileiros. A canção marcou a transição do maxixe para o samba. Quase cinco décadas depois, Brasília, recém-inaugurada, recebia os primeiros sambistas ; servidores públicos transferidos do Rio de Janeiro para a nova capital. Desde então, a cidade se transformou em um dos principais polos criativos do ritmo, com espaços agitados pela cena dos bambas que marcaram história no Distrito Federal. O Diversão & Arte homenageia o centenário do samba com uma retrospectiva dos principais momentos do gênero na capital. Do surgimento da Associação Recreativa do Cruzeiro (Aruc), em 1961, aos artistas que fazem sucesso aqui e no resto do país.


1960
O que a Casa de Tia Ciata, no centro do Rio de Janeiro, e a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro, no Gavião, em Brasília têm em comum? Distanciadas geograficamente e pelo tempo, ambas, em diferentes épocas, foram o berço do samba. Enquanto, há 100 anos, o local onde residia a babalorixá baiana se tornou o ponto de encontro de compositores que criariam o nosso gênero musical mais representativo; aqui, pioneiros, quase todos cariocas, promoviam no fundo do quintal de suas residências as primeiras rodas de samba na nova capital.

Das reuniões organizadas por Tia Ciata (no mesmo local onde ocorriam cultos afrobrasileiros), com a participação de futuros bambas como Donga, João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres surgiria, em novembro de 1916, um novo ritmo, representado por Pelo telefone, de Donga ; historicamente o primeiro samba gravado.

Já numa das rodas na residência de um dos moradores do futuro Cruzeiro Velho, foi criada a Aruc (foto), como lembra o aposentado Luis Salgueiro de Amorim, mais conhecido como Luis Cabide. Do alto dos seus 76 anos, ele conta: ;Nos reunimos na casa do Paulo Marujo, cabo da Marinha, ao lado de outras 12 pessoas, e fundamos a Unidos do Cruzeiro. Daquele grupo, além de mim, os únicos sobreviventes são Camilo, Euclides, Jorge e Pita;

Todos eles participaram do primeiro desfile de escolas de samba, na plataforma superior da Estação Rodoviária, vencido pela Alvorada e Ritmo, agremiação criada por moradores das quadras 410/411 Sul. Segundo Hélio dos Santos, ex-presidente e profundo conhecedor da história da Aruc, as reuniões dos sambistas ligados à Azul e Branco (que anos depois viria a ser batizada pela Portela) ocorriam ao relento, na Quadra 21 (atual Quadra 5) do Cruzeiro Velho.

Naquele bairro existia um clube chamado Cruzeiro do Sul, onde na primeira metade dos anos 1960 a Aruc promoveu shows de Eliana Pitman e Oswaldo Nunes. ;Numa outra oportunidade, a escola recebeu a visita de ninguém menos que Cartola e Dona Zica da Mangueira;, revela Hélio. Ele diz que, naquele período inicial da cidade, eram poucos os shows de samba. Sabe-se que quem costumava vir a Brasília para cumprir temporada, no antigo Hotel Imperial, na W3 Sul, era o compositor Herivelto Martins, sempre acompanhado por seu conjunto.


1970
A década de 1970 foi marcada por alguns acontecimentos relevantes relacionados com o samba. Um deles foi a incorporação da área antes ocupada pelo clube Cruzeiro do Sul pela Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro, que ali construiu sua sede provisória, onde realizava os ensaios para o carnaval, a roda de samba no Botequim da Aruc; e recebeu grandes nomes do samba, como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Moreira da Silva. Outro foi o surgimento da Acadêmicos da Asa Norte (com as cores vermelho e preto, batizada pelo Salgueiro), que no futuro viria a ser a maior rival da Azul e Branco do Cruzeiro.

Outro importante movimento foi o proporcionado pelo Clube do Samba (foto), iniciativa de Carlos Elias, que ocupava o Teatro Galpãozinho, na entrequadra 507/ 508 Sul. ;Ligado ao samba, no Rio de Janeiro, desde a adolescência, quando vim transferido pelo Itamaraty para Brasília, logo procurei tomar contato com sambistas e apreciadores desse gênero musical na cidade;, recorda-se.

Primeiro, o ex-integrante da ala de compositores da Portela se associou a Paulo Brandão numa casa noturna chamada Camisa Listrada, na Galeria Nova Ouvidor, no Setor Comercial Sul. ;Ceiamos um ambiente com uma decoração bacana, levamos vários grupos de samba a se apresentar ali, mas por vários fatores durou menos de um ano;, conta.

Logo em seguida, sem perder o entusiasmo, Carlos Elias criou o Clube do Samba, que funcionou entre 1978 e 1981 e entrou para a história da música na capital. ;Por lá passaram as figuras históricas de Manoel Brigadeiro, Julinho do Samba, os sambistas Edinho da Magali e Zeca Melodia e a cantora Vanja, que hoje mora na Suiça. Recebemos numa daquelas noites memoráveis Paulinho da Viola, depois de um show dele no Teatro da Escola Parque;.

Já no fim dos anos 1970, surgiu o Casarão do Samba, onde hoje existe o Museu de Arte de Brasília. O lugar foi igualmente marcante para os cantores e grupos brasilienses. O anfitrião da casa era o conjunto Pernambuco do Pandeiro e suas mulatas ; a mais conhecida era a escultural Neide ;, que recepcionava outros artistas, inclusive quem vinha de fora, como o lendário Jamelão, intérprete de sambas-enredo da Mangueira por anos a fio.


1980
Quem dominou a cena do samba em Brasília na década de 1980 foi um grupo chamado Sambrasil, liderado pelo pandeirista Pelezinho, um músico talentoso que hoje, aos 70 anos, voltou a morar no Rio de Janeiro e participa do Samba da Sopa, roda comandada por Júnior (ex-craque do Flamengo e da Seleção Brasileira e hoje comentarista esportivo da TV Globo), na Barra da Tijuca.

;Comecei minha carreira no fim dos anos 1970, mas foi na década seguinte, quando, junto com Celso (cuíca), Zezinho (surdo), Mauro (agogô), Josias (cavaquinho), Cecílio (tamborim) e Tatão (vocal), criamos o Sambrasil, que veio o sucesso. Éramos chamados para tocar nos mais diferentes eventos em Casas noturnas, como Fina Flor do Samba, Cavaquinhoclubes sociais;, lembra.

;No período que antecedia o carnaval, animávamos as batalhas de confete, no Plano Piloto e nas cidades-satélites;, acrescenta Pelezinho. O Sambrasil (foto) abriu shows de grupos famosos como Fundo de Quintal, ;com Arlindo Cruz e Sombrinha; e Originais do Samba, que na época ainda contava com Mussum;.

Ivan Mendonça, que também integrou o Sambrasil, relata: ;Naquele período, outros grupos de destaque eram o Fino do Samba, Sambaqui Rio e Nó na Madeira. Foi ainda na década de 1980 que houve o lançamento dos dois primeiros LPS intitulados Sementes de Brasília, uma coletânea com a participação de vários compositores da cidade e eu emplaquei sambas em ambos. Mendonça (parceiro de Dinho do Luz do Samba em Overdose de cocada, gravado com sucesso por Bezerra da Silva), mantém-se em atividade e no domingo participa da Plataforma do Samba, na Estação Rodovi

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