Visão do Correio

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postado em 04/12/2016 00:00
Protestar, sim. Violência, não

Hoje, estão programadas manifestações em 26 capitais e 206 cidades contra a corrupção no país. Uma reação necessária da sociedade às absurdas mudanças feitas pela Câmara dos Deputados no projeto de lei que contemplava as10 propostas contra a corrupção, apresentada pelos promotores da Operação Lava-Jato e chanceladas por cerca de 2,4 milhões de brasileiros. Os deputados, por mais de 400 votos, desfiguraram as medidas anticorrupção. Não satisfeitos, incluíram no projeto um conjunto de mecanismos que os blindam pela prática de caixa dois e outras infrações penais.

A proposta prevê ainda a punição de promotores e magistrados por abuso de autoridade. Decretaram, naquele momento, o fim da operação, deflagrada há mais de dois anos, que desmontou um dos maiores esquemas de desvio de dinheiro público, envolvendo políticos e empreiteiras dentro da Petrobras. Um golpe bilionário, que irrigou campanhas políticas e promoveu o enriquecimento de grande parte dos envolvidos. Pela primeira vez na história, a sociedade viu parlamentares, empresários renomados e executivos atrás das grades. Sentiu a inédita sensação de que todos são iguais perante a lei. A Lava-Jato, até agora, recuperou R$ 5 bilhões dos R$ 10 bilhões que teriam sido desviados da estatal, segundo estimativas dos investigadores.

Quando as apurações chegaram mais próximas dos líderes dos grandes partidos, os parlamentares se sentiram ameaçados. Hoje, cerca de 300 dos 584 congressistas têm pendências com a Justiça. A apreensão tornou-se maior com a prisão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e, mais recentemente, com o acordo de deleção premiada fechado entre cerca de 80 executivos da Odebrecht e a Procuradoria-Geral da República. Na quinta-feira, o presidente do Senado, Renan Calheiros, citado em 12 processos, tornou-se réu acusado de peculato.

Os sucessivos episódios protagonizados pelos parlamentares para estancar a sangria provocada pela Lava-Jato e outras forças-tarefas, voltadas ao combate à corrupção, têm motivado as mobilizações, como as marcadas para hoje. Indignados, os brasileiros estão cansados de ver a deterioração dos serviços públicos, como saúde, educação, segurança, mobilidade, sob responsabilidade do Estado. Em contrapartida, a carga tributária é uma das mais altas do mundo ; corresponde a cerca de cinco meses de salários dos trabalhadores. O dinheiro, em vez de atender às necessidades dos contribuintes, é desviado pelos políticos, cuja ganância é insaciável.

Quando a sociedade volta às ruas, bom senso e serenidade são atitudes que se impõem. Protestar é direito legítimo e exercício de cidadania amparados pelo Estado democrático de direito. Apelar para a violência é inaceitável e reduz os manifestantes à condição de vândalos. O recurso à violência compromete os objetivos da manifestação, reveste o ato de descrédito e angaria a repulsa de potenciais aliados. Os prejuízos impostos ao poder público significam a queima do dinheiro que cada contribuinte repassa ao caixa do governo. Portanto, prostestar, pressionar e demonstrar aos políticos a discordância dos seus atos é dever de cada eleitor. Todos precisam ser lembrados de que chegaram ao poder para agir em favor daqueles que os elegeram e os sustentam: os cidadãos.

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