A doutora compadecida

A doutora compadecida

postado em 04/12/2016 00:00

É impossível resistir à tentação de rascunhar um punhado de versinhos quando o assunto é o trabalho da pernambucana de Gravatá Paola Tôrres, 50 anos. Médica hematologista, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), mestre e doutora em farmacologia da inflamação e do câncer e pós-doutora em medicina integrativa, ela também é compositora, violonista, tocadora de ukulelê, percussionista, repentista e cordelista.

Foi nessa métrica tão nordestina que a oncologista resolveu escrever Andei por aí ; narrativas de uma médica em busca de medicina, livro lançado pelas Edições UFC, em que fala do ofício de cuidar, tão esquecido ultimamente, preterido pelo puro e simples ato de tratar. A obra teve origem no pós-doutorado, cursado na Universidade de Campinas (Unicamp).

;A Academia incentiva muito uma formação técnica. Não tem uma prática de humanidade;, diz Paola, que passa para seus alunos a necessidade de se voltarem mais às pessoas. ;O que parece é que o médico que vai pra Harvard é o ;the best;, e o que está em Icó é o ;the bosta;;, critica. ;Mas o ser humano que acolhe a dor do outro não pode ser diferente só porque uma tem pós em Harvard e o outro está em Icó.;

Fundadora do Instituto Roda Vida, em Fortaleza, onde atende gratuitamente pacientes de câncer com a abordagem integrativa, Paola Tôrres recebe 30 pessoas por dia em seu consultório. Mas não apenas recebe os que vêm a ela. A doutora compadecida também vai atrás de seus doentes. Por isso, colocou o pé na estrada e rodou 3 mil quilômetros sertão adentro. Queria entender o grau de informação de pessoas com linfoma de Hodgkin ; raras neoplasias originadas em gânglios ; e constatou que, até serem diagnosticadas, nunca tinham ouvido falar da doença. Pior: os médicos e os profissionais de saúde, por falta de educação continuada, não encaminharam esses pacientes ao serviço adequado.

As histórias ouvidas em Fortaleza, Quixadá, Quixeramobim, Senador Pompeu, Quixelô, Iguatu, Tauá, Saboeiro e Várzea Alegre viraram o documentário Caminhos da cura, de 2015. Daí, pularam para o papel, nos versos rimados da cordelista, com direito a ilustrações inéditas do mestre J. Borges, o mesmo xilogravurista que ilustrou, entre outras obras, o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

No livro Andei por aí, pessoas como a dona de casa Antônia Zeneuma, o guia de turismo Ataíde Lopes e o vaqueiro Elisberton Ferreira transformam-se em personagens do folheto de cordel:

Dos 13 personagens, 11 tiveram final feliz. Um deles, o agricultor Josafá Pedrosa, morreu antes do lançamento do livro. ;Mas não foi do linfoma, foi de velhice;, esclarece a médica. O outro, Francisco Roberto, um ;rapaz tão tristonho;, já chegou muito grave aos cuidados de Paola. Melhorou, mas, no meio do tratamento, o câncer recorreu.

A arte ajuda, entre outras coisas, a lidar com o peso da doença. ;É uma válvula de escape. O linfoma tem 85% de chance de cura, mas isso quer dizer que, de cada 100 pacientes, vou perder 15. Essas perdas ficam na sua alma. Então, a arte ajuda a dar conta das dores que ficam no seu caminho;, acredita a médica. Uma ajuda que, muitas vezes, é criticada por colegas de profissão. ;Alguns perguntam: ;Como pode ser pós-doutor e tocar repente? Como se uma coisa excluísse a outra.;

A medicina tradicional também não pode excluir, na opinião da doutora, as práticas complementares, principalmente no tratamento do câncer, uma doença cujo nome já desacredita os pacientes. ;Cem por cento deles procuraram tratamento alternativo e fazem isso escondido. Não revelam para o médico por medo de serem criticados. Nisso, podem tomar um chá, por exemplo, que corta o efeito da quimioterapia;, exemplifica. Daí o papel do médico integrativo: ele vai saber quais práticas complementares são as mais indicadas.

O mesmo respeito que Paola Tôrres tem pelos tratamentos convencionais, ela dispensa à meditação, à medicina ayurvedica, à homeopatia, aos florais e à ioga, entre outros:


O Câncer misterioso

O linfoma de Hodgkin é considerado um câncer raro. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a estimativa de novos casos em 2016 é de 2.470. Por motivos ainda não completamente esclarecidos, ele é mais comum dos 15 aos 40 anos. Segundo o onco-hematologista Fernando Blumm, médico da unidade de Brasília do Hospital Sírio-Libanês e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), as causas desse câncer não são conhecidas, embora se saiba que há uma relação com o vírus Epstein-Barr, o mesmo que causa mononucleose. ;Oitenta por cento da população tem contato com esse vírus. Naqueles pacientes predispostos, o linfoma pode ocorrer;, esclarece. ;O que parece é que uma mutação adquirida por fatores externos deflagra a doença;, diz. Quais fatores são esses, porém, é algo que a medicina desconhece.

Diferentemente de outros tipos de câncer, portanto, para esse, não existe prevenção. ;O que insistimos é no diagnóstico precoce;, afirma Blumm. Quando detectado em estágio localizado, a chance de cura pode beirar os 90%, segundo o onco-hematologista. Nos casos avançados, fica em torno de 70%. Para facilitar a identificação da doença no início, o médico pede que não se ignore os seguintes sintomas: caroço indolor que não vai embora e não está associado a quadro infeccioso, febre inexplicada, sudorese também inexplicada, perda súbita de peso, prurido (coceira) não associado a alergia. ;É muito importante que se investiguem esses sintomas;, insiste.

A hematologista Juliana Minuncio Nascimento, da Aliança-Instituto de Oncologia, lembra que, quanto mais precocemente a detecção, maiores as chances de cura. Além disso, idade avançada, presença de doença cardíaca ou pulmonar associadas e o tipo de tratamento podem comprometer o sucesso terapêutico. ;Nos casos em que não há resposta satisfatória ao tratamento inicial, pode-se utilizar uma combinação de outro esquema quimioterápico com radioterapia e/ou transplante de medula óssea, além de imunoterapia ou terapia-alvo;, diz.

De acordo com a médica, as terapias-alvo têm mostrado resultados muito promissores. ;Estão em andamento estudos clínicos que buscam avaliar a utilidade dessas medicações já no tratamento inicial dos pacientes. Os resultados das pesquisas poderão impactar significativamente na toxicidade do tratamento e no sucesso terapêutico, e são aguardados com muita expectativa pela comunidade científica;, diz. A onco-hematologista Paola Tôrres lamenta que os pacientes que dependem do Si

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