A hora mais escura

A hora mais escura

Debaixo de muita chuva, choro e emoção, torcedores, familiares, amigos e autoridades velaram as 50 vítimas levadas a Chapecó

Marcos Paulo Lima Enviado especial
postado em 04/12/2016 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)



Chapecó (SC) ; A espera de quatro dias pelos corpos das vítimas da tragédia de Medellín estava chegando ao fim. Depois de um silêncio de pouco mais de uma hora, de olhos fixos no telão acompanhando o cortejo de 10km do aeroporto até a Arena Condá, os torcedores, que não arrastavam os pés da chuva, puderam finalmente rever seus ídolos da forma mais dura, em um gramado encharcado pela chuva, pelas lágrimas, sem clima, nem condição de jogo.

No aeroporto, foram homenageados com salva de tiros. Depois, aos gritos de ;o campeão voltou;, os 50 caixões entraram no gramado. Na sequência, aplausos ao som da marcha fúnebre e de hinos religiosos do cantor e da harpa cristã, como Mais perto de Ti. Nas arquibancadas, homens, mulheres e crianças, com mãos entrelaçadas, olhavam paralisados. Incredulidade de quem viu o time em campo pela última vez nas semifinais, contra o San Lorenzo, nas semifinais da Copa Sul-Americana, e esperava revê-lo no estádio na festa do título, na próxima quinta-feira, no dia seguinte à finalíssima no Couto Pereira, em Curitiba, contra o Atlético Nacional, da Colômbia. Com capacidade para 19 mil pessoas, a Arena Condá não tinha capacidade para receber a decisão continental.

Depois da acomodação dos 50 caixões no gramado, a banda de música da Polícia Militar de Chapecó executou o Hino Nacional. Os torcedores não tinham forças para cantar. Apenas aplaudiram no fim. A música oficial da Chapecoense também foi entoada com palmas.

Presidente em exercício da Chapecoense depois da morte de Sandro Pallaoro no acidente aéreo, Ivan Tozzo falou em nome do clube. ;Eles combateram o bom combate. A partida repentina desses talentos é irreparável. Que os nossos pequeninos não percam a esperança. Nossa amada Chape, mais do que nunca, precisa de vocês.; O dirigente foi interrompido por aplausos quando agradeceu o zelo da Colômbia com as vítimas. ;A alegria e a simplicidade superam tudo. O sonho não acabou. Ele renascerá com a força de todos vocês. Provamos que para um sonho, não há tamanho;, encerrou.

Vestido com a camisa do Atlético Nacional, o prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, agradeceu aos colombianos e homenageou os médicos. ;Obrigado, Colômbia, vocês sempre estarão em nossos corações;. E citou uma homenagem feita pelo clube. ;A Chapecoense veio a Medellín com um sonho e volta como uma lenda. Lendas não morrem;, emocionou-se. Em dos momentos mais emocionantes, crianças, o futuro da Chapecoense, entraram com as bandeiras do Brasil, da Colômbia, de Santa Catarina, de Chapecó e da Chapecoense. Carlinhos, a mascote vestida de Índio Condá, acompanhado da família, fez chover lágrimas na Arena Condá. Funcionários do clube entraram com balões brancos.

Ídolos

No último ato da cerimônia, os nomes das vítimas da tragédia foram exibidos no telão da Arena Condá. Ídolos do clube, Danilo, Bruno Rangel e Cleber Santana foram ovacionados, assim como o técnico Caio Júnior, que foi velado no Paraná. Jornalistas, comissão técnica, dirigentes, como o presidente Sandro Pallaoro, e convidados também foram lembrados nominalmente e aplaudidos. Na finalização das homenagens, o jornalista Cid Moreira narrou trechos da Bíblia e o bispo de Chapecó, Odelir José Magri, leu uma mensagem enviada pelo papa Francisco. ;Consternado pela trágica notícia, (o papa Francisco) pede para que transmita as condolências. (...) O Santo Padre pede aos céus conforto e restabelecimento para os sobreviventes, coragem e consolação;, leu o religioso.

O fim da cerimônia também mostrou que a dor e a tristeza ainda vão demorar muito para esmorecer. Enquanto os familiares e amigos levavam os caixões para fora ; grande parte dos jogadores e da comissão técnica vem de outros lugares do país ;, a torcida órfã continuou aplaudindo. E não arredou o pé da Arena Condá. Eles não foram para casa.

A amizade de dois países
A queda do avião da Chapecoense em Medellín, na Colômbia, fez as relações entre Brasil e o país vizinho se estreitarem, como admitiu o embaixador do País em Bogotá, Júlio Bitelli. ;Não é necessário algum papel ou formalidade burocrática para selar a fraternidade entre Colômbia e Brasil ou Chapecó com Medellín. Mesmo sem papéis que mostrem, somos mais irmãos do que nunca;, disse o diplomata. O público colombiano rendeu homenagens em todos os dias. ;A mensagem que deixamos ao mundo inteiro é de que somos solidários. Foi uma despedida dura, mas que jamais vamos esquecer;, afirmou o prefeito de Medellín, Federico Gutiérrez Zuluaga.

;Eles combateram o bom combate. A partida repentina desses talentos é irreparável. Que os nossos pequeninos não percam a esperança. Nossa amada Chape, mais do que nunca, precisa de vocês;
Ivan Tozzo,
presidente em exercício da Chape

;Obrigado, Colômbia, vocês sempre estarão em nossos corações. A Chapecoense veio a Medellín com um sonho e volta como uma lenda. Lendas não morrem;
Luciano Buligon,
prefeito de Chapecó

;A gente conhece pessoalmente quem morreu nesse acidente. É difícil falar em um momento de tanta consternação, mas pelo menos um abraço ajuda, é o mínimo que se pode fazer para minimizar a dor;
Tite,
técnico da Seleção Brasileira

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