Respire, admire, deguste e sinta

Respire, admire, deguste e sinta

Viveiros de Brasília oferecem possibilidades muito mais profundas do que apenas comprar plantas. Visitar esses espaços pode ser uma experiência sensorial

» ROBERTA PINHEIRO Especial para o Correio
postado em 04/12/2016 00:00

Ao lado de vias movimentadas, em cada viveiro de Brasília, existe um universo que contrasta com o branco do concreto de Niemeyer e com o cenário de carros e cenas da vida urbana. Um mundo à parte se forma em meio às mudas, à terra, aos vasos, às sementes e, quem diria, a um ateliê e até mesmo a um café. Para encontrar esse refúgio em um lugar comercial, não é fácil. Nem mesmo alguns funcionários do Polo Verde do Lago Norte sabem que, nos fundos do Viveiro de Mudas Aroeira, a vegetação divide espaço com as comidas naturais, arte, troca de experiências e aprendizado.

;Saímos do simples comércio de plantas para vender sonhos. Por isso, fizemos um pequeno lago na entrada do viveiro, por exemplo. Percebemos que as pessoas queriam ficar aqui, não só comprar e ir embora;, explica o dono do empreendimento, Ido Pellicano, 52 anos. Uma visita ao viveiro precisa ir além da porta de entrada. Tem que extrapolar o espaço do caixa. Ali ficam o café Aroeira e o ateliê Suculentas e Tal. Bastam só alguns minutos para a energia acolhedora do ambiente conquistar o visitante.


Mesmo para os que não estão interessados em uma suculenta ou uma orquídea para um jardim particular, frequentar o Polo Verde do Lago Norte pode ser um programa agradável. Uma alternativa para quem gosta de arte, de plantas, de respirar ar puro, de sentir o cheiro da terra molhada e de tomar um bom café acompanhado de comidas caseiras.

Ali tem uma goiana que ama cozinhar. Especialista em gastronomia, elaborou um cardápio com quiches, saladas no pote, brownie de laranja e framboesa e iogurte natural, um dos preferidos na casa. ;A gente compra o leite de uma fazenda da região. É tudo fresquinho;, conta Valdeon Santana Ferreira, 34, filho de Luciene Ferreira Santana, 59. Para os amantes de café, tem o de máquina e o tradicional, coado.


Logo ao lado, uma oficina aberta e convidativa para quem gosta de cores. ;Queria ter um ateliê dentro de um viveiro, com essa energia bucólica, sem fronteiras;, lembra a paisagista Telca Maria Malheiros, 58. Em meio às pedras coloridas de mosaico, ela reúne os alunos para ensinar arte e, principalmente, para socializarem. ;É um lugar para as pessoas se encontrarem;, conta. No decorrer das aulas, as vantagens de estar tão perto da natureza aparecem: chegam os caminhões de São Paulo, carregados de orquídeas, e os pássaros entram e decidem participar.

No Viveiro de Mudas Aroeira, também tem cursos de história da arte, oficinas de mosaico, de desenho à mão livre, técnicas de jardinagem.

A designer de interiores Cecília Barboza, 57, estava acostumada a frequentar a loja para realizar projetos de paisagismo até reencontrar Telca, amiga da pré-adolescência, para fazer curso. ;É um lugar de harmonia, da arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida;, diz, parafraseando o poeta Vinícius de Moraes. Cecília transformou as aulas de mosaico em terapia.


Uma visita ao estabelecimento deve ser feita com tempo para aproveitar os mínimos detalhes. Além do café e do ateliê, há cenários com bancos, árvores, plantas e estátuas, criados para acolher quem quer ler um livro ou simplesmente relaxar. ;A pessoa também vê o que pode ser feito em casa. Uma coisa é você olhar a muda num vaso pequeno, outra, é vê-la plantada em um ambiente;, explica Ido. No local, outro lago artificial ganhou peixes, e o barulho de água corrente faz qualquer um se esquecer da vida conturbada da grande cidade. Os animais de estimação não são descartados do programa, pelo contrário, podem acompanhar os donos para um passeio diferente.

Mais alguns passos e o visitante se depara com variados tipos de hortas, inclusive uma de plantas alimentícias não convencionais. Ali, mais cursos são ofertados pelo viveiro. Os amantes do ioga também são convidados a fazerem aulas em uma sala aberta do terreno. ;Imagina fazer ioga num lugar desses, com o barulho dos pássaros;, comenta Ido.


Capital do verde
Em diferentes pontos de Brasília, o verde toma conta e encanta quem procura por opções de jardinagem. Além do polo do Lago Norte, os brasilienses podem encontrar viveiros no Park Way e outro próximo à Octogonal, na saída da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia). Mudas, sementes, estátuas, bonecos de jardim, pedras e cascalho. Quem passa de carro não imagina o tamanho dos terrenos e a variedade de produtos que eles oferecem.

Há 30 anos, o viveiro da Octogonal é o jardim da casa de Francisca Barros de Alencar, 52. Moradora do Cruzeiro, ela trabalha o dia inteiro naquele lugar, que é um refúgio da natureza em meio à cidade. ;Vou em casa só para dormir;, diz. As mudas vendidas ali chegam de todo o Brasil: Goiânia, São Paulo, Brasília e Santa Catarina. Ela comenta que o movimento no viveiro é constante e atende todo tipo de gente, principalmente moradores de apartamento.

Como se estivesse na própria casa, ela mantém no local geladeira, televisão, telefone, além dos produtos que vende. Francisca anda pelo terreno onde guarda as fontes, as estátuas e as plantas. Reconhece tudo o que tem. ;Amo esse lugar. Tudo o que consegui na vida, carro, casa, foi por meio do meu trabalho;, afirma.




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