Maior caso de doping da história tem mão russa

Maior caso de doping da história tem mão russa

A definição abaixo é do relatório McLaren, divulgado ontem. O documento aponta a manipulação de amostras de exames de atletas russos feita com a ação direta do governo daquele país, entre 2011 e 2015

postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Franck Fife/AFP - 15/12/15
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(foto: Franck Fife/AFP - 15/12/15 )




Mais de mil atletas de 30 modalidades foram beneficiados por um sistema de doping institucionalizado na Rússia, com manipulação sistemática das amostras de exames nos Jogos Olímpicos de Londres-2012 e Sochi-2014. Essa é a conclusão a que chegou o relatório McLaren, divulgado ontem. O país não demorou a reagir, negando ;qualquer programa de governamental de apoio ao doping;.

O documento, assinado pelo jurista canadense Richard McLaren, diz exatamente que ;uma conspiração institucional foi implementada, com participação do Ministério dos Esportes e de serviços como a Agência Russa Antidoping (Rusada), o laboratório antidoping de Moscou, com o FSB (serviços secretos) para manipular amostras;. ;Existem provas contundentes de um doping institucionalizado de 2011 a 2015;, sentenciou McLaren, encarregado da investigação pela Agência Mundial Antidoping (Wada).

;Mais de mil atletas russos de modalidades de inverno e verão, olímpicas ou paralímpicas foram envolvidos ou beneficiados com essas manipulações;, acrescentou o jurista, que não quis revelar nomes. ;Talvez nunca conheceremos a dimensão da corrupção dos resultados em Londres. Trata-se da maior fraude nos tempos modernos em um evento;, afirmou McLaren. Para ele, os resultados ;impressionantes; dos russos em Londres ;falam por si só; ; o país ficou em quarto lugar, com 80 medalhas, 23 delas de ouro.

;As informações que possuímos são confidenciais. Cabe às federações internacionais decidirem o que fazer com elas;, justificou, ressaltando que as identidades de 695 atletas, entre eles 19 não russos, foram repassadas às entidades internacionais.

McLaren iniciou a investigação depois das revelações de Grigori Rodtchenkov ao jornal New York Times. Rodtchenkov é ex-diretor do laboratório antidoping de Moscou e agente do FSB. Hoje, está refugiado nos Estados Unidos.

A primeira parte do relatório, divulgada em julho, às vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio-2016, teve como foco o esquema de doping sistemático e a manipulação de amostras no caso específico dos Jogos de Inverno de 2014, realizados em Sochi, balneário do sul da Rússia. ;O objetivo era garantir que a Rússia, como país-sede, pudesse conquistar o máximo de medalhas possíveis, deixando que os melhores atletas se dopem, inclusive durante os Jogos;, destacou McLaren nesta sexta-feira ; deixando claro que não há indício de participação do presidente do país, Vladimir Putin.

Há um ano
Depois da divulgação da primeira parte do relatório, mais de cem atletas russos foram excluídos dos Jogos do Rio, cerca de um terço do total da delegação. Na verdade, o escândalo estourou há um ano, com as revelações bombásticas de uma comissão independente da Wada sobre o esquema doping organizado no atletismo, com base em denúncias de um documentário da emissora alemã ARD. Em novembro de 2015, as revelações levaram a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) a suspender o país de todas as competições internacionais da modalidade. A punição coletiva impediu, por exemplo, a saltadora com vara Yelena Isinbayeva de buscar o tricampeonato olímpico no Rio.

A IAAF reagiu nesta sexta-feira à divulgação da versão final do relatório, afirmando que sempre ;colaborou de forma estreita; com a Wada, lembrando que ;53% dos atletas citados foram punidos ou tiveram processos abertos contra eles;. A entidade também informou que ;iniciou uma estratégia de reanálise de amostras de competições do passado, começando com o Mundial de Osaka-2007;.

Já o Ministério dos Esportes da Rússia negou a existência de um programa de doping de Estado. ;O Ministério dos Esportes da Rússia (...) continuará aplicando a política de tolerâncias zero;, anunciou o órgão em um comunicado. Na nota oficial, o ministério deixou claro que ;estudará com cuidado; as conclusões do relatório, para adotar uma ;posição construtiva;. Citado por agência de notícia russas, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que não quer ;reagir no calor do momento;.




Personagem da notícia

Agente duplo

O ex-diretor do laboratório antidoping de Moscou Grigori Rodtchenkov, cujas revelações motivaram a investigação de Richard McLaren, era também membro do FSB, órgão dos serviços secretos da Rússia. ;O emprego secundário do dr. Rodtchenkov como agente do FSB, posição que ocupou no momento em que assumiu a diretoria do laboratório de Moscou, em 2007, era um elemento essencial nos planos; de estabelecer um programa de doping de Estado na Rússia, explica o relatório McLaren.

;Ele recebeu ordens de transmitir informações sobre os acontecimentos em curso nos laboratórios credenciados pela Agência Mundial Antidoping (Wada) e relatar tudo que acontecia em seu laboratório, ao mesmo tempo em que adiantava as próprias pesquisas científicas;, detalha o texto.

Seu conhecimento das capacidades dos outros laboratórios contribuiu para a evolução do ;esquema de doping; na Rússia. Foram preparados, por exemplo, coquetéis de produtos dopantes, cuja janela de detecção era mais curta que o necessário em laboratórios credenciados pela Wada. O fato de Rodtchenkov ter atuado como agente dos serviços secretos surpreende quando se sabe que foi justamente o ex-diretor que denunciou todo o esquema, virando agente duplo ao fugir para os Estados Unidos.



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