Substância da ayahuasca ajuda a criar neurônios

Substância da ayahuasca ajuda a criar neurônios

Feita por pesquisadores de instituições brasileiras, a descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos contra o Alzheimer e a síndrome de Down

Danilo Queiroz* e Felipe Caian*
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Eitan Abramovich/AFP - 9/8/14
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(foto: Eitan Abramovich/AFP - 9/8/14 )

Uma equipe de cientistas do Brasil constatou que a harmina, substância contida em grande quantidade na ayahuasca (planta base do chá usado nos rituais do santo-daime) contribui na regeneração de neurônios. O achado pode levar a tratamentos para doenças neurológicas, como o Alzheimer. Realizada pelo Instituto D;Or de Pesquisa e Ensino (Idor) e pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB-UFRJ), a pesquisa foi publicada, nesta semana, na revista especializada Peer J.

Estudos anteriores haviam comprovado que a ayahuasca continha efeitos ansiolíticos (que combatem a ansiedade) e antidepressivos. Agora, os pesquisadores buscaram relacionar a harmina à criação de células neurais humanas. Na experiência, expuseram células com capacidade de se transformar em estruturas neurais humanas à substância. ;Nós criamos (em laboratório) progenitores neurais, ou seja, células que vão dar origem aos neurônios. Esse é o grande diferencial do nosso trabalho;, diz Stevens Rehens, um dos autores do projeto e pesquisador do Idor.

Depois de quatro dias, constatou-se que a substância aumentou a proliferação de progenitores neurais humanos em 71%. ;Colocamos uma quantidade de células em cultura, em uma placa, e expusemos essas células à harmina. Quando realizamos essa exposição, vimos que o nível dessas células aumentou de forma significativa;, explica o cientista. O resultado instigou a equipe a descobrir como a substância age sobre as células progenitoras. ;Nós usamos uma série de ferramentas bioquímicas e concluímos que ela inibe uma enzima chamada DYRK1A. E o interessante é que essa enzima está extremamente ativada em caso de Alzheimer e síndrome de Down.;

Depressão

O efeito de neurogênese detectado na harmina é semelhante ao constatado em experimento com ratos tratados com antidepressivos, que ;frequentemente são acompanhados por diversos efeitos colaterais;, ressalta Rehens. Segundo o investigador, o resultado alcançado por ele e a equipe tem grande relevância e sinaliza a possibilidade de novas intervenções terapêuticas. ;Temos o diferencial de que foi feito com células humanas, e a pesquisa abre a perspectiva de se estudar a harmina com uma possibilidade de aplicação terapêutica;, justifica.

Rehens acredita que o trabalho abre precedentes para que o tema seja mais explorado na comunidade científica. ;Precisamos fazer muito mais estudos nesse sentido. Nós temos uma primeira evidência. É o primeiro tijolinho de um trabalho que busca evidenciar substâncias que, muitas vezes, são proibidas, mas têm um potencial terapêutico que precisa ser estudado;. O grupo de pesquisa contou com o apoio financeiro das agências de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

* Estagiários sob a supervisão de Humberto Rezende

Para saber mais
Tratamento de diabetes
A harmina também foi cogitada para tratar o diabetes. Ao testar 100 mil drogas, pesquisadores da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, nos EUA, concluíram que apenas ela conseguia regenerar células pancreáticas perdidas em decorrência da doença. Testada em ratos, a substância também levou ao melhor controle do açúcar no sangue e triplicou a quantidade de células beta produtoras de insulina.
Nesse caso, o benefício da harmina também se deu pela relação com a DYRK1A. Juntas, segundo a pesquisa divulgada em março de 2015 na Nature Medicine, aumentam os controladores da divisão celular, permitindo a criação das beta. Essas células estiveram ligadas apenas ao diabetes 1, quando o corpo identifica essas estruturas como inimigas e as destrói. Estudos têm mostrado que uma deficiência de células beta funcionais também contribui para o surgimento do diabetes 2, caracterizado pela produção insuficiente de insulina.


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