Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Um piano no coração do poder

por Gustavo T. Falleiros >> gustavofalleiros.df@dabr.com.br
postado em 10/12/2016 00:00
Quando o Piantella fechou, escrevi uma crônica dizendo que lamentava não ter visto a casa no auge. Mais que isso: que era uma pena não ter ouvido Mariozinho ao piano. A feijoada de sábado regada a Tom Jobim me assombraria de vez em quando. Dali em diante, deveria me contentar com as lembranças alheias, com os relatos de segunda mão. Isso foi no trigésimo primeiro dia de agosto. A Terra rotacionou ao redor do eixo. E o Piantella voltou.

Um grande retorno, sem dúvida, pois restituiu o staff clássico, com o chef Agenor Gomes, os ma;tres Chicão e Ozanan Chaves, e o pianista Mário Svendsen Pinheiro. O novo dono, o empresário Omar Peres, fez algo semelhante com o Bar da Lagoa, no Rio. Agora não há desculpas: provarei os profiteroles ao som de Frank Sinatra. Para selar esse compromisso, chamei o músico para um café, naquela mesma tarde em que Renan dava nó em pingo d;água.

Mariozinho conta que toca de ouvido. ;Isso é bom por um lado. Os meus ensaios são na madrugada, ouvindo rádio. É quando eu pego os acordes, entendeu? Às vezes, descubro que tal música eu toco diferente. Se fosse na partitura, não teria esse problema. Essa é a grande falha, mas, no resto, é uma beleza. Você ouve a música e já toca ; é a melhor coisa que existe!” Esse talento, porém, não tinha pretensão de se profissionalizar.

Quando veio para Brasília, em 1984, ;só conhecia a cidade de noticiário;. Os filhos eram pequenos e não queriam deixar o Recife, mas não houve arrependimento. À época, trabalhava para um grupo cimenteiro de São Paulo. Dois anos após a mudança, surgiu o convite para tocar no recém-inaugurado Forty-five, um piano-bar na 203 Sul. ;Quando comecei, era de dia nos ministérios e, à noite, no restaurante. E foi muito bom;, admite ele, noctívago declarado. A experiência no Forty-five o credenciou para o Piantella.

E que noites! O pianista recorda com apreço o período de 1993 a 2002, quando a classe política fazia do restaurante uma extensão do Congresso. Para situar o leitor, o escândalo dos Anões do Orçamento estava no auge. ;Nesses tempos áureos, tinha hora para começar. Para terminar, nunca;, observa. Com um repertório robusto nas pontas dos dedos, não deixava as conversas caírem no vácuo. Passou Itamar, passou Fernando Henrique, passou Lula, passou Dilma. Mariozinho ficou.

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