De volta ao abrigo

De volta ao abrigo

Dez araras que, há 15 dias, foram reinseridas na natureza retornaram ao local em que foram cuidadas após período de maus-tratos

DOUGLAS CARVALHO ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)

O fazendeiro Marcelo Imperial, 47 anos, caminha ao lado dos viveiros em seu rancho, localizado a 44 km do centro de Brasília, enquanto explica o motivo de uma de suas principais preocupações: a preservação da fauna do Distrito Federal. Em especial, a das aves que trazem na plumária as cores da bandeira do Brasil, as araras-canindé. ;Pássaro não deve ser enjaulado. Em gaiola, ele não canta, só lamenta;, conta. Desde 2007, ao lado dos irmãos, a historiadora Marta, 52, e o administrador Márcio Imperial, 53, ele cuida de bichos vítimas de maus-tratos e contrabando, na fazenda Chapada Imperial, e os reintegra à natureza.

Marcelo acrescenta que os animais se apegam a quem lhes trata bem. Prova disso é que, há 15 dias, 10 araras, cuidadas por Marcelo e, posteriormente, reinseridas ao meio ambiente, regressaram voluntariamente ao aviário. Desde então, nem ameaçam deixar o local. As araras se juntaram a outros sete animais da mesma espécie e a 20 jabutis. Marcelo arrisca um palpite para o regresso: ;Ou foram capturadas e, em seguida, fugiram, ou não encontraram lugar melhor na natureza;. Ele conta que reconheceu as aves pelas anilhas ; arcos de metal presos às patas para identificação ;, presentes em metade das araras que retornaram. O irmão dele, Márcio, avalia que o projeto liderado pela família, o Bicho Livre, já reintegrou mais de 4,5 mil bichos à natureza: papagaios, tucanos, tamanduás, jabutis e cobras.



Os animais desembarcavam na fazenda após serem apreendidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em operações de combate aos maus-tratos, ao contrabando e à criação em cativeiros. Desde 2015, porém, o Ibama e a Polícia Militar Ambiental enviam os bichos capturados para o próprio Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas).

O biólogo especialista em comportamento animal Ricardo Bettinelli endossa a justificativa para a volta das araras. ;As aves criam apego a humanos facilmente. Principalmente aquelas que sofreram maus-tratos em cativeiros e, depois, receberam cuidados. Lembram-se, mesmo após vários anos, dos locais onde foram bem tratadas;, explica. Ele acrescenta que a capacidade desses animais de se localizar facilmente encurtou a busca pelo antigo lar.

Já a bióloga Maria Eugênia Schmidt vai além. Ela salienta a necessidade de sobrevivência como fator essencial para o retorno das aves à fazenda. ;O local abriga os principais componentes da alimentação dessas aves, como buritis. A possível escassez desse alimento nas proximidades, causado, entre outros fatores, pelo desmatamento, contribuiu para essa volta;, elucida. Na reserva, as aves comem, além do buriti, nativo do cerrado, manga, mamão e semente de girassol, fornecidos pelos funcionários do local.
Equilíbrio ecológico

Os pesquisadores ressaltam a importância da preservação das aves para o equilíbrio ecológico. Isso porque as araras, por exemplo, facilitam a busca de animais terrestres por alimento. ;Ao comer o buriti, as araras o derrubam no solo e, assim, animais como capivaras, pacas, catitus e tamanduás podem se alimentar;, esclarece a Maria Eugência.

Marcelo explica que os maus-tratos alteram o comportamento dos pássaros. ;Há duas araras aqui, por exemplo, que foram criadas em cativeiros e, por isso, não chocam seus ovos em árvores. Não têm segurança para isso;, conta. As aves, segundo ele, não recebem nome ao desembarcar na fazenda. Exceto uma: a Gasolina. ;Essa se chama assim porque pousa em todos os carros que chegam aqui;, brinca o fazendeiro.

As araras-canindés, também conhecidas como arara-de-barriga-amarela ou arara-amarela, estão ameaçadas de desaparecer do planeta para sempre. Uma das causas é a caça e a derrubada e a queima das árvores que albergam os ninhos. Isso não apenas prejudica a reprodução das espécies de pássaros que recorrem ao abrigo em diferentes épocas reprodutivas, mas muda por completo o habitat desses animais. Hoje, o lugar reúne apenas 17 aves, três vezes menos que os 60 pássaros que a fazenda já acolheu de uma só vez.



A reserva funciona não somente como um local de reabilitação dos animais, mas como ;sala de aula;, segundo Marcelo Imperial. ;Temos a preocupação de alertar desde cedo as crianças e os adolescentes sobre os problemas causados pelo ser humano aos animais;, explica o fazendeiro. Em um dos viveiros, há esculturas de cobras, pássaros, tamanduás e sapos, como ilustração da cadeia alimentar. Marcelo estima que a Chapada receba 10 mil alunos dos ensinos fundamental e médio, além de universitários de todo o DF. O local também é palco de visitação e estudos de pesquisadores do Brasil e do exterior.

Proteção ambiental
A reserva da Chapada Imperial é a maior Área de Proteção Ambiental (APA) privada do Distrito Federal, ao lado do Parque Nacional de Brasília, dentro da APA de Cafuringa. O local reúne 33 cachoeiras espalhadas em aproximadamente 5 km de área preservada, entrecortada por diversas trilhas com diferentes extensões e graus de dificuldade.

Controle
Os Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama devolveram 275 mil animais à natureza, de 2002 a 2014, conforme relatório elaborado pela Coordenação de Fauna Silvestre do Instituto. Em 13 anos, foram recebidos 568 mil bichos. Em média, 43 mil por ano. Do total, o Cetas soltou aproximadamente metade e destinou 14% a criadouros científicos e particulares, por não terem condições de retornar à natureza.



4,5 mil
Número de animais reintroduzidos pela Chapada Imperial à natureza

VÍDEO
Confira os depoimentos dos donos da fazenda no tablet e no site do CORREIO


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação