E o jazz esbarrou no frevo

E o jazz esbarrou no frevo

Disco de estreia de pianista pernambucano mistura influências jazzistas norte-americanas com a sonoridade de compositores e arranjadores ensolarados, como Capiba e João Donato

» Leonardo Cavalcanti
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Rafael Medeiros/Divulgação)
(foto: Rafael Medeiros/Divulgação)





O passo é mais lento ao subir o morro. Lá, nas escadarias do Recife, o frevo desacelera, levando, ladeira acima, uma balada instrumental com sonoridade encorpada. O responsável pela desconstrução do ritmo pernambucano é o pianista Amaro Freitas, 25 anos, que acaba de lançar Sangue negro, um álbum maduro, não apenas pela capacidade técnica, mas pela diversidade de referências, indo das composições de Capiba ao baixo de Charles Mingus, passando por Keith Jarret e parando nos arranjos ensolarados de João Donato.

Sangue negro é uma audição garantida, sem arrependimentos. O disco estabelece conexão entre vanguarda e tradição, algo que sempre fez o jazz escapar dos ambientes eruditos e cair na rua. ;Ele tira o piano do conservatório e o populariza, apresentando ao povo;, diz a cantora e pesquisadora de jazz Camilla Inês, que, a pedido do Correio, ouviu o disco de Amaro. Pernambucana radicada em Brasília, Inês se mostra uma entusiasta do pianista: ;Amaro abre um diálogo musical profundo com o público;.

A música Subindo o morro, o tal frevo desacelerado ; com referências declaradas ao pianista norte-americano Keith Jarrett ; é apenas uma das preciosidades do álbum de estreia de Amaro, que, há pouco mais de 12 anos, começou a tocar teclado nos cultos da igreja evangélica na periferia do Recife, onde o pai, seu Jeremias, um músico autodidata, tinha uma banda. ;Comecei pela bateria, mas a competição entre os meninos para tocar era intensa. Aí meu pai sugeriu o teclado;, lembra.

Composição
Amaro está para além de um virtuose, dada a força das composições. ;Enquanto ouvia Sangue negro, meus ouvidos me transportaram para o universo onde habitam os sons do hard bop, produzidos por Cecil Taylor, McCoy Tyner e Charles Mingus;, afirma Renato Vasconcelos, professor de piano popular da Universidade de Brasília (UnB). Ao comparar o som de Amaro à corrente do jazz com influência do blues e do gospel, Vasconcelos faz referência aos outros músicos do álbum.

A banda de Amaro em Sangue negro é formada por Jean Elton, no baixo; e Hugo Medeiros, na bateria ; com participações especiais do saxofonista Eliudo Souza e o trompetista Fabinho Costa. ;É uma música energética e envolvente. O estilo de Amaro ao piano se integra com perfeição ao som de seus companheiros de trio, baixo acústico e bateria, reforçado pelos ótimos sax-tenor e trompete. Música para ganhar a estrada e correr o mundo;, diz Vasconcelos.

Gravado no estúdio Carranca, no Recife, o disco foi produzido por Rafael Vernet, um dia professor de Amaro Freitas e parceiro de estúdio e de palco de lendas como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Wilson das Neves. Sangue negro, a música que dá título ao álbum, é a mais forte. ;É a fusão do jazz contemporâneo com o tradicional, partindo de algo mais caótico e trabalhando fraseados em sequência que traz doçura ao jazz;, afirma o gaitista brasiliense Engels Espíritos.

Depois das primeiras experiências com a música na igreja evangélica, Amaro Freitas foi aprovado numa das vagas do Conservatório Pernambucano de Música, mas se viu obrigado a largar o curso por falta de dinheiro para a passagem de ônibus. Aos 18 anos, ao conseguir um emprego numa empresa de call center, custeou cursos e aulas. ;A música de Amaro Freitas é como um vinho de casta superior. Esse vinho tem tons de Mingus, Thelonious Monk, Coltrane, mas também Hermeto, bossa, todo o ritmo e profundidade da música nordestina e negra. É uma mistura incrível, um brinde;, diz o ator e músico Murilo Grossi. A partir daqui, esqueça qualquer referência ; não é mais preciso. É preciso ouvir Amaro.

"Enquanto ouvia Sangue negro, meus ouvidos me transportaram para o universo onde habitam os sons do hard bop, produzidos por Cecil Taylor, McCoy Tyner e Charles Mingus;

Renato Vasconcelos, professor de piano popular da Universidade de Brasília (UnB)

Três perguntas para / Amaro Freitas
Sangue negro é cheio de referências, mas quais são as suas influências diretas?
Capiba, em primeiro lugar. Quando estava no período do conservatório, ganhei um livro do Capiba e fiquei encantado com aquela descoberta. Ali tinha choro samba, maxixe, frevo, mas tudo tão mais lento, ao contrário dos frevos tocados nas ruas. Capiba era um pianista precioso. Aquilo despertou a minha curiosidade, a possibilidade de tocar frevo e maracatu, ritmos mais percussivos, no piano, sendo capaz de trazer referências ocidentais para um estudo mais regionalizado. Outra referência recente é o Spok Frevo Orquestra, que mexe na estrutura do frevo. Toda uma geração de músicos pernambucanos hoje já nasce com a possibilidade de ampliar a execução do frevo.

Corre a lenda no Recife que você destrói o piano literalmente, por causa da força com que toca.
Isso é uma brincadeira. Tive uma vez uma conversa com o meu professor, que virou produtor, Rafael Vernet, e ele perguntou porque eu precisava ser agressivo o tempo todo. Ouço muito Keith Jarret e Brad Mehldau, mais líricos, suaves. Outras referências são o Thelonious Monk e o Herbie Hancock, que me mostraram que o piano pode cantar mais. De certa forma o jazz permite isso, a ligação de suas referências com a dos músicos que estão tocando com você.

Quando veio o interesse pela música?
Tive sorte. Meu pai é autodidata e tinha uma banda na igreja evangélica lá em Nova Descoberta, bairro da periferia do Recife. Aos 13 anos, queria tocar bateria, mas todos os meninos queriam bateria. Assim, fui para o teclado. Logo depois, passei na prova do Conservatório Pernambucano de Música. Nessa época, a minha família teve mais dificuldades e fiquei sem dinheiro para as passagens de ônibus. Mas aí comecei a tocar em casamentos, eventos e consegui um emprego num call center. Depois passei a fazer cursos, com gente como Thales Silveira, e entrei no mercado musical, tocava até sertanejo. Comecei a viver de música. Hoje faço produção fonográfica, um curso que me deu uma noção maior da necessidade de networking.

Sangue negro
Todas as músicas do disco de Amaro Freitas estão disponíveis nas plataformas do YouTube e do SoundCloud. Em breve também poderá ser ouvido no Spotify, no Deezer, no iTtunes e na Amazon.com

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