Banquete antropofágico

Banquete antropofágico

A cantora, compositora e ensaísta Beatriz Azevedo lança livro com uma interpretação inovadora, polêmica e provocadora sobre as ideias de Oswald de Andrade

» Severino Francisco
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: LeoFontes/Divulgação - 17/3/11 )
(foto: LeoFontes/Divulgação - 17/3/11 )



Com a liberdade de artista e a voracidade de antropófaga, a cantora, compositora e ensaísta Beatriz Azevedo revisitou as ideias de Oswald de Andrade e escreveu um livro que já nasceu na condição de clássico sobre o tema: Antropofagia ; palimpsesto selvagem (Cosac e Naif). Ela ficava profundamente irritada com a banalização promovida com as ideias de Oswald. A antropofagia passou a ser utilizada com uma falta de rigor e de conhecimento do texto original que se tornou tudo e nada. Por isso, atiçada pela indignação, ela retomou o Manifesto antropófago, de Oswald de Andrade, frase por frase, palavra por palavra, para oferecer um banquete de ideias, a um só tempo, saboroso, polêmico e provocador. Beatriz enfatiza que o caos da globalização nada a ver com a antropofagia formulada por Oswald, poesia crítica, poesia de exportação. Nesta entrevista, Beatriz fala sobre a relação com a poesia, os equívocos sobre a antropofagia e a atualidade surpreendente das ideias de Oswald em um Brasil assolado por múltiplos retrocessos e aberto à devoração crítica.

Qual a sua conexão com a antropofagia?
Claro que já me fiz muito essa pergunta. Tive contato inicial com o Oswald de Andrade poeta na escola, fiquei encantada. Mas certamente teve um impacto tão grande que mergulhei em toda a sua obra. Hoje, eu posso dizer que concordo com Augusto de Campos: a antropofagia é a única filosofia original do Brasil e um dos movimentos mais radicais que a gente teve.

O que a antropofagia te revelou?
Essa filosofia me fez ver o processo de destruição e criação desse lugar chamado Brasil. É com essa mirada que olho para o Brasil e o mundo. É definidor e definitivo. Pauta a relação com arte, com cultura e com política no mundo. O livro é um dos desdobramentos desse processo. Cada vez mais sou chamada para representar o Brasil sobre o tema da antropofagia em vários lugares do mundo. Se não tivesse essa filosofia, não teria esse olhar crítico, seria devorada pelos clichês em torno do Brasil. É muito filosófico, existencial, critico e político. Sou outra pessoa e agradeço, pois já vi muitos artistas fazendo papel de palhaço. Existe uma cilada para os brasileiros fazerem o papel de bobos da corte. Nunca fiz papel de bobo da corte por causa desse olhar crítico da antropofagia.

Como definiria a essência da antropofagia?
É esse olhar de inversão. No Manifesto antropófago, Oswald diz que sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. A declaração dos direitos do homem é considerada a base da civilização ocidental. Não era uma piada. Essa declaração só foi feita quando o europeu encontrou o indígena nu das Américas. Como a utopia de Thomas Morus, sem nós, índios da América, não existiria. Oswald inverte a posição de colonizador e colonizado. Nós imitamos a cultura norte-americana da quinta categoria. Nós é que somos a matriz de uma cultura riquíssima.

E qual é a matriz da antropofagia?
Em 1928, Oswald já alertava sobre o perigo de desagregação da Amazônia. Veja os Estados Unidos: onde não tem índio foi tudo destruído. Nós, que somos trogloditas, mas ainda temos muitos índios, por isso, ainda temos a Amazônia. Presta atenção como é pobre esse colonizador. Nós já tínhamos um sistema planetário. Tínhamos a política, os índios tinham a ciência da distribuição muito antes de Karl Marx falar em comunismo. Além de tudo, são felizes. Os europeus são infelizes. Por isso, a antropofagia influenciou Glauber Rocha, Caetano Veloso, Tom Zé, Zé Celso, o Teatro Oficina e o Mangue Beat. Todos os movimentos importantes da cultura brasileira no século 20 se inspiraram e dialogaram com a antropofagia.

A globalização atualizou a antropofagia?
A antropofagia não tem nada a ver com a globalização. O modernismo teve um papel muito importante de atualização da arte brasileira. Para aquele momento histórico, foi uma ruptura. Nenhum teatro abria espaço para Villa-Lobos. Era só ópera italiana. Não haveria Villa-Lobos se não fosse a semana de arte moderna. Foi um avanço tremendo em todas as áreas. No caso de Oswald de 1922 para 1928, ele passou a questionar tudo. Sentiu que houve uma acomodação, Carlos Drummond de Andrade foi trabalhar com Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Cultura. Mario de Andrade virou funcionário público. Por isso, a antropofagia, agora quero bomba atômica, diria ele. Seis anos depois lança o movimento antropófago.

Quais são os grandes equívocos em relação à antropofagia?
Sempre associaram ao gringo, a comer o gringo e misturar com o brasileiro. Tem o exocanibalismo que devora o estrangeiro, mas tem também o intracanibalismo, que devora o antepassado. Sua avó morre e você faz um ritual antropofágico. O segundo equívoco é que as pessoas percebem a antropofagia a partir do depoimento do alemão Hans Staden, que escapou do ritual antropofágico, voltou para a Europa e contou essa história. Se ele contou é porque não foi comido. Os índios o acharam covarde, carne fraca para se comer. Foi desprezado ; os tupinambás o consideraram carne de quinta categoria, pois ficou com medo e começou a pedir perdão. A globalização come tudo. O critério dela é econômico, é a venda a qualquer preço. Vende sanduíche de minhoca, refrigerante de ácido sulfúrico. A antropofagia é a maior crítica possível ao capitalismo.

Mas o tropicalismo não fez uma leitura da antropofagia e tentou atualizar o Brasil a partir do diálogo e da devoração da cultura estrangeira, europeia e norte-americana?
Sim, o tropicalismo olhou para a guitarra elétrica do Jimi Hendrix e modernizou a música popular brasileira. Mas a antropofagia de Oswald não era a de olhar para fora. Ao contrário, quando ele olha para fora, ele diz: ;Europa você é filial, nós somos matriz. Tudo de balística, engenharia, nos digerimos. Quando olho para o global, estou sacando que vocês exploraram o pau-brasil, o ouro e o café. Questiono a mentalidade estrangeira.; Oswald nunca se vê como colonizado, como devedor da cultura europeia. Proclamava que os índios já eram surrealistas antes de 1500. Foram os surrealistas que olharam para os índios e os africanos em busca de inspiração.

O caos de signos da era pós-moderna é antrofágico?
Sempre questiono essa associação. A antropofagia é uma filosofia de altíssima voltagem crítica, os índios não comeram Hans Staden porque ele era fraco. O processo pós-moderno é baixo canibalismo. Uma atitude importante é descolar antropofagia de cap

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