Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

marciocotrim@facbrasil.org.br www.marciocotrim.com.br
postado em 10/12/2016 00:00



Uma refeição supimpa
Onze horas da manhã de domingo. As crianças vêm para a cama do casal, começa a pândega, o quarto vira um caos. Lençois fronhas e travesseiros voam de um lado para o outro. Num intervalo da batalha doméstica, alguém propõe: "vamos almoçar fora?"

Claro que sim. Hoje não tem empregada, a comida congelada é pouca, e sair para almoçar em restaurante é programa que todo mundo topa na hora.

Onde ir? A dúvida se resolve em segundos: vamos a um chinês, não tem erro. Comida gostosa, farta e barata. Banhos tomados, lá se vai a família debaixo do salão da tarde modorrenta.

Chegaram ao restaurante, o de sempre: crianças excitadas por comerem fora, os marmanjos com a barriga roncando e loucos para sentar num lugar sossegado. Aí surge um sujeito anódino que se esmera em distribuir senhas para organizar o acesso à casa de pasto.

Afinal, entram. Entram e se vêem diante de grande tumulto, contraponto ao ruído de talhares, que esgrimam por cima dos pratos. Eça não perdoaria a cena: um covil d; alimentação oriental.

Na família, alguém tenta comer usando os pauzinhos chamados hashis, mas o resultado é imensa lambança. Ao fundo, um cidadão exibe, com orgulho, uma barbatana de tubarão. A seu lado, uma senhora de sôfregas carnes estufa as bochechas repletas de banana caramelada. Em outra mesa, há quem deixe o macarrão chinês escorrer mesa abaixo. Todo o salão está a um milímetro do pântano.

À mesa, grande e redonda, com o centro mais elevado e giratório, a família, atarantada, passa ; escolha dos pratos. O garçom se apresenta pingando de suor, roupa imunda de molhos e chás recentes, e toca a guarnecer a mesa com papel torpe, sem toalha. Os talheres são banais - como banal e patético é tudo aquilo que se vê, escuta e respira em torno.



Cabe aqui um comentário. A cozinha chinesa é das mais sofisticadas do mundo. Não se compreende, pois que, por aqui, Brasília sejam pouco mais que botecos Seus donos ainda não acordaram para o óbvio que seria uma decoração fina, iluminação apropriada, garçons vestidos a caráter e, claro, música típica.

No Chinatown de Nova York, assim como há pocilgas que fedem a óleo barato, existem também restaurantes, com vários ambientes, com até aquele misterioso ar charliechaniano. Você se transporta ao mundo mágico dos mandarins. Mas voltemos a nossa singela singela casa de pasto.

Vem o cardápio. Rabiscado e emporcalhado, traz ao aflito comensal uma relação burocrática de pratos numerados. Nem vestígio de requinte, até porque os garçons são pobres e sofridos nordestinos recém-chegados a Brasília.
A comanda é declarada pelo pai da família. Mais parece uma equação de ginasial. O galalau mais velho quer o 22 e o 66. Para a menina, a soma do 14 com o 37, a mulher e eu vamos dividir o seguinte: um prato 20, de brócolis, com de arroz colorido acebolado.

O garçom escreve os números como se estivesse anotando apostas de jogo do bicho. Para quem cultiva o valor da boa mesa, nem o mais remoto sinal de uma arte culinária multimilenar: Deve mexer com os ossos do mestre Brillat Savarin que, um dia, afirmou, que "a descoberta de um novo molho é mais importante para a espécie humana que o nascimento de uma estrela no firmamento".
Pobre Savarin se um dia estivesse naquele antro de nutrição servida como parafusos ou porcas na linha de montagem de uma fábrica de caminhões.

Segue o bródio familiar. Crianças choram e correm por entre as mesas. Um abjeto ventilador de teto espalha gorduroso odor no ambiente, isso ao som de 100 decibéis, o que torna inaudível a emissão de uma sílaba a não ser aos berros.

O casal, que já viajara pelo mundo, suspira pelo pato laqueado que um dia lhe foi delicadamente servido em Hong Kong, enquanto escutava sons de um tênue instrumento chinês. Ninhos de andorinha, divino chá de jasmim, como tudo se opunha àquela insensata correria que mais parecia um almoço napolitano devorado por Aldo Fabrizi, Ave Ninchi e seus doze rebentos!

Antigamente era o ajantarado cheio de cozidos e cervejas que se esticava até a noite guarnecido por roncos monumentais. Hoje, a opção da pequena burguesia brasiliense é meter-se- se num lugar como esse e envolver-se no roldão de uma refeição apocalíptica.
O jeito, para esses e todos os casais, é conformar-se com seu porquinho acridoce e concluir que, pelo menos - se a comida é caótica, sobra ainda o calor do convívio.

"Jacaré parado vira bolsa"
Arthur Dapieve

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação