A Europa quer conquistar nosso torcedor

A Europa quer conquistar nosso torcedor

Roubando jovens fãs brasileiros, times da Europa se infiltram nas pesquisas de opinião e já ameaçam o mercado nacional com venda de camisas e domínio das redes sociais

Braitner Moreira Victor Gammaro*
postado em 11/12/2016 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)



O Barcelona é o time mais popular do Japão. O Manchester United domina China e Índia. Na Argélia, só dá Arsenal. O Liverpool reina na Tailândia. Os maiores clubes da Europa passaram as últimas décadas salteando o público dos países nos quais os times têm nível técnico risível. A novidade é que, agora, estão entre nós. Basta olhar a seu redor, para qualquer aglomeração de fãs jovens de futebol. As agremiações mais ricas do planeta descobriram a América Latina. Seu filho será torcedor do Barcelona. Se ainda não for.

Hoje, o Correio publica a primeira de uma série de reportagens sobre a invasão dos gigantes europeus em solo brasileiro. E a ;ameaça; pode até soar defasada para um pai cuja criança passe o domingo vestindo uma camisa de Neymar ou Messi. Entre os jovens com vasto acesso à informação, é difícil encontrar alguém que não simpatize com um time estrangeiro.

A tendência se mostra péssima para os clubes brasileiros, que se depararam com a concorrência milionária do outro lado do Atlântico. As pesquisas de opinião começaram a encontrar brasileiros natos que se apresentam como torcedores exclusivos de equipes europeias. ;Até pouco tempo atrás, isso era impensado para o Brasil, uma coisa de Índia e Paquistão. Se esse movimento se confirmar, será um risco para os times daqui;, pondera José Colagrossi, diretor executivo do Ibope Repucom.

O torcedor que passou a ignorar os times daqui é jovem, tem de 16 a 29 anos, está nas classes A ou B e acessa internet rápida pelo celular. O perfil foi traçado pela empresa de pesquisa. ;Esse grupo não existia. Agora, passou a existir estatisticamente;, diz Colagrossi. ;Ainda está dentro de uma curva de erro que não me permite dizer se é 0,5% ou 2% do torcedor brasileiro, ainda é cedo. Estatisticamente, o importante é que esse grupo não para de crescer.;

Entre os brasileiros dessa faixa etária e com acesso à internet, a proporção de torcedores ou simpatizantes de equipes estrangeiros era de 64% em 2013. No ano passado, a parcela chegou a 69%, na pesquisa mais recente do Ibope Repucom. O estudo será repetido em 2017.

A comercialização de uniformes oficiais comprova a tendência do crescimento internacional em nosso solo. A Netshoes vende quatro camisas do Barcelona para cada uma do Botafogo ou do Fluminense. ;É inacreditável, mas o uniforme mais vendido do país é a camisa infantil do Barcelona. Depois, vem o Real Madrid. Só depois vem o Flamengo. O presente é sombrio, o que vem no futuro?;, questiona Pedro Tengrouse, professor da Fundação Getulio Vargas.

Futebol sublime

A oferta crescente de TV a cabo e internet banda larga é a principal parceira dos gigantes europeus. ;O amor pelo Barcelona é o amor pelo sublime;, filosofa o sociólogo Luciano Paccagnella, da Universidade de Turim, da Itália, acrescentando que ;vivemos num mundo em que, da classe média para cima, não há mais fronteiras;.

O Barcelona, maior caso de sucesso da década tanto esportiva quanto comercialmente, tem 10,3 milhões de simpatizantes ou torcedores no Brasil ; considerando apenas os brasileiros de 16 a 29 anos. Nessa faixa etária, o time catalão já é a quinta maior torcida do país, à frente de Vasco, Cruzeiro e Atlético-MG. Para comparação, o Barça soma 12,2 milhões de fãs na Espanha.

;Ao longo da história, as crianças têm aumentado o interesse em esportes por causa da influência da mídia. É natural que a escolha dos times também sofra influência;, avalia o professor de marketing Eric Schwarz, da Universidade de Victoria, da Austrália.

*Estagiário sob supervisão de Leonardo Meireles

Na estante

;Para a maior parte da humanidade, o processo de globalização acaba tendo, direta ou indiretamente, influência sobre todos os aspectos da existência: a vida econômica, a vida cultural, as relações interpessoais. Os individuos não são igualmente atingidos por esse fenômeno, cuja difusão encontra obstáculos na diversidade das pessoas e na diversidade dos lugares. Na realidade, a globalização agrava a heterogeneidade, dando-lhe um caráter ainda mais estrutural.;

Por uma outra globalização
Milton Santos, 2000

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