Vulneráveis sobre duas rodas

Vulneráveis sobre duas rodas

Desrespeito de motoristas, falta de ciclovias e até embriaguez ou uso de drogas fazem com que os ciclistas se envolvam em acidentes graves com mais frequência. Levantamento de 2014 mostra que os homens são as maiores vítimas

» DOUGLAS CARVALHO Especial para o Correio
postado em 11/12/2016 00:00
 (foto: André Violatti/Esp.CB/D.A Press)
(foto: André Violatti/Esp.CB/D.A Press)



O comerciante Celmo Bezerra, 53 anos, trabalhava na própria empresa de estética automotiva quando o celular tocou, na tarde de 26 de novembro. Do outro lado da linha, um funcionário do Samu o informava sobre o acidente de trânsito sofrido pelo filho, o fisioterapeuta Eric Bona, 25, enquanto pedalava no Lago Sul. O acidente aconteceu por volta das 12h50, quando o jovem cruzava uma via na QI 23, no Setor de Mansões Dom Bosco. ;O meu filho atravessou a pista muito rápido, não viu o automóvel. O motorista do carro também estava distraído. Acabou acertando o Eric;, lamenta Celmo. Três horas depois, o ciclista morreria no Hospital de Base do Distrito Federal.

Eric representa o perfil de vítimas mortas em acidentes de trânsito fatais envolvendo bikes no Distrito Federal. Levantamento realizado em 2014 pela Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social, em conjunto com o Departamento de Trânsito (Detran), mostra que, dos 20 ciclistas mortos naquele ano, 12 tinham de 20 a 39 anos. Dois deles se encaixam na faixa etária de 10 a 19 anos, enquanto quatro tinham de 40 a 49. Três das vítimas somava 60 anos ou mais. Apesar disso, o número de acidentes e fatalidades envolvendo esses veículos em 2014 caiu, atingindo o menor nível desde 2005 (veja quadro).

O estudo aponta também que as fatalidades sobre duas rodas aconteceram durante momentos de lazer. Mesmo assim, a quantidade de colisão com óbitos envolvendo bicicleta naquele ano caiu 66% em relação a 2005. Até setembro deste ano, 11 bikes se envolveram nesse tipo de acidente na capital federal, de acordo com dados preliminares do Detran.

Álcool e drogas


O levantamento indica, ainda, um dado que chama a atenção: metade dos 20 ciclistas mortos em acidentes de trânsito nas vias do DF em 2014 estava sob efeito de bebida alcoólica ou outros entorpecentes ; não é o caso do fisioterapeuta Eric Bona, que estava sóbrio no momento da fatalidade. Embora a embriaguez não seja a causa das mortes dos ciclistas, o tópico levanta o debate sobre os perigos de se consumir esse tipo de substância antes de pedalar. Segundo familiares ouvidos para a pesquisa, sete das vítimas tinham o costume de consumir bebida alcoólica com frequência.

O diretor de Policiamento e Fiscalização de Trânsito do Detran, Silvain Fonseca, salienta o risco. ;Não só os motoristas e moto podem estar sob efeito de álcool, mas os ciclistas também. E, inclusive, podem oferecer perigo a outras pessoas e a eles mesmos;, ressalta. E alerta: no trânsito, motoristas de automóveis têm maior responsabilidade sobre quem pedala. ;O maior deve proteger o menor. Os motoristas passaram por uma formação. Os ciclistas, não;, afirma.

Professor emérito do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), Hartmut Gunther endossa o alerta de Silvain. Especialista em psicologia mental no trânsito, ele sugere a implementação dos conceitos de educação no trânsito no ensino básico. ;Obviamente, não se deve exigir um tipo de CNH para ciclistas. Mas, à medida que o uso de bicicletas se amplia, é importante abordar o tema no contexto do ambiente escolar.;

O pesquisador rechaça a necessidade de criação de uma disciplina específica, mas propõe a correlação do tema a outros conteúdos. ;A educação para o trânsito deve ser algo transversal. Ou seja, atrelado aos conceitos de física, como a aceleração, por exemplo, e aos de matemática;, detalha. Gunther contextualiza uma possível relação dos efeitos da embriaguez, como perda do equilíbrio, abordados nos conceitos de biologia, como forma de educação de trânsito.

Coordenador financeiro da ONG Rodas da Paz, o servidor público Bruno Leite, 35 anos, tem mais de duas décadas de experiência com bikes. Ele ressalta a importância das ações de conscientização. ;Quem pedala e sai alcoolizado também pode causar mortes;, salienta.

Fatalidade

O condutor que matou o jovem dirigia uma Ford Ranger. Com o impacto, o capô do veículo ficou retorcido sobre o para-brisa. A bicicleta do fisioterapeuta se partiu em duas. Segundo a Polícia Civil, o condutor do veículo, Renato Luís Casella, 37 anos, alegou que estava na velocidade da via quando o ciclista, repentinamente, cruzou a faixa à sua frente, e ele não conseguiu frear a tempo. O motorista disse também que parou o carro e prestou os primeiros socorros auxiliado por um casal que passava pelo local.

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