A voz (e a vez) do feminino

A voz (e a vez) do feminino

Após mais de uma década sem publicar poesia, Elisa Lucinda está de volta com uma coletânea de 381 poemas

» Nahima Maciel
postado em 11/12/2016 00:00
 (foto: 
Simone Portellada/Divulgação-28/7/15)
(foto: Simone Portellada/Divulgação-28/7/15)



Há 11 anos Elisa Lucinda não publicava um livro de poesia. Já estava agoniada com a quantidade de versos escritos em cadernos numa prática que ela exercita diariamente. A poeta capixaba nunca deixou de escrever. Os versos, ela explica, ajudam a entender a vida, os pensamentos, os problemas, os amores, o cotidiano, praticamente tudo. Portanto, não é surpresa que Vozes guardadas, uma coletânea de dois livros escritos na última década, comporte mais de 380 poemas. ;Foram 11 anos sem publicar mas andei escrevendo todos os dias. Escrevo poesia normalmente, escrevo poesia para entender uma história, um fato, uma posição minha sobre alguma coisa;, avisa a poeta. ;Quando escrevo um poema, aquilo que estou vivendo se esclarece. Seja o que for que eu tenha que elaborar do ponto de vista psicológico, gosto muito de escrever.;

Aos 58 anos, a poeta e atriz não tem fronteiras para os temas. E Vozes guardadas traz um pouco de tudo. O primeiro livro, Jardim das cartas, reúne versos que falam da angústia, do amor, do nascimento, das ausências, da liberdade e também de um assunto urgente, que a poeta faz questão de citar. Carta negra, uma das sessões desta primeira coletânea, lembra que há espaço na poesia para lamentar a intolerância, o racismo, a discriminação, a violência e tudo que emerge do que Elisa chama de ;miséria humana adulta;. ;Em Carta negra, botei tudo que eu acho. Muito do que eu penso sobre várias coisas que são motivo de intolerância. Temos que nos colocar. A arte é a que mais produz educação informal;, acredita.

Em versos como ;Me deixa em paz./Deixe o meu, o dele, o dos outros em paz/ Qualé rapaz, o que é que você tem com isso?/ Por que lhe incomoda tanto o tamanho da minha saia?/Se eu sou índia, se sou negra ou branca; e ;a velha tarja preta na jovem cara preta,/esse petróleo desperdiçado.;, Elisa dá um recado de um Brasil triste. Mas não se limita a ele. A voz erótica também está lá. ;O homem/o pau do homem/o pensamento dele./Nada sai da minha cabeça./Minha paixão tão intensa./ É pelo corpo que a alma pensa;, escreve a capixaba.

Em O livro do desejo, o erotismo e a feminilidade são mais evidentes. Para o neto que ainda não tem, ela escreve: ;Depois, emocionada de existir/e de ser tronco da divina criaturinha,/saio e chamo o lobo bom/para comer a vovozinha;. ;Esse livro traz mais atualidades. E adorei fazer. Falam muito que sou uma poeta erótica e gosto muito, mas nunca foi de propósito, sabe? Se falo de tarde, vou falar de tudo que a tarde tem. Se falo de sexo, vou falar de tudo que o sexo tem. A tarde não é nem maior nem menor que o sexo e exige de mim a mesma demão. E isso a gente não pode deixar de dizer que é uma atitude feminista;, diz.

Corruptos
Vozes guardadas também traz dois poemas já bem conhecidos. Milionário do sonho ; a voz de um ;menino brasileiro;, ;cafuzo, versador, com um tambor de ideias pra disparar; ; nasceu de uma parceria com Emicida e está gravado no álbum O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui. Está em Jardim de cartas. Lá, também entrou Só de sacanagem, poema sobre corrupção escrito, a autora adverte, bem antes da Lava-Jato. ;Fiz para todos os corruptos. Parece que foi para o PT, mas não foi. As pessoas acham que fiz agora, mas não. Fiz em 2004. E Ana Carolina gravou;, adverte.

Elisa está aliviada de ter publicado os dois livros. Agora, ela pode se dedicar ao segundo romance com mais tranquilidade. É um projeto para ser publicado em 2017, com uma reedição de Parem de falar mal da rotina, sucesso de público com mais de 30 mil exemplares vendidos. O novo romance, ela adianta, é sobre o amor. ;Agora ninguém me segura, estou apaixonada com o negócio do romance;, admite. O primeiro, Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada, é uma autobiografia ficcional que acabou finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Elisa Lucinda gostou tanto de escrever ; foram quatro anos de pesquisa para produzir o livro ; que agora quer enveredar também pelo gênero. Abaixo, a poeta fala sobre o novo livro e sobre erotismo, intolerância e envelhecimento.

Vozes guardadas

De Elisa Lucinda. Record, 518 páginas. R$ 49,90


>> Ponto a ponto Elisa Lucinda
SELEÇÃO

A escolha dos poemas foi um pouco trabalhosa e muita coisa ficou de fora. Mas são 381 poemas. Tá bom. Demora-se a consumir um livro desse. Então, já não estou mais lamentando os que ficaram de fora. Fui escrevendo muito nesses anos todos. Tenho muito poema sem publicar. Nesse ínterim, continuei escrevendo poesia. Aí nasceram vários livros que fui organizando e que foram se diluindo. Não eram publicados e foram se transformando em outras coisas. E o resumo desse período todo está representado nesses dois livros, O jardim das cartas e O livro dos desejos.

RACISMO
O Brasil ficou viajando que é democracia racial. É um mito. Um mito grave. Todo dia é um leão que a gente tem que matar. Outro mito é o de que nós somos pacíficos. Puxa, nossa origem, nossa gênese é feita de violência, a violência contra os índios, contra os negros. Um holocausto. Outro dia tive uma discussão porque queriam colocar numa ficção que estou fazendo um diabo de black power rastafari. E eu disse que não queria. A figurinista (do filme) não conseguiu entender. Achou que fosse implicância minha, uma paranoia. Aí meu filho falou para propor colocar o diabo de quipá. Aí vieram: não, aí vai ser antissemita. Antissemita é mais grave que ser racista. E o holocausto foi só judeu. Foram 400 anos de escravidão, uma mortandade inumerável no mar, nos navios negreiros. Isso não é holocausto?

FEMINISMO
Outro dia um amigo disse ;ficam dizendo que o machismo mata. E o feminismo não mata?;. Não. O feminismo não é a luta do domínio de um gênero sobre o outro, é a luta por uma igualdade de direitos, por respeito em todos os sentidos. E o machismo não. O machismo é a pressão de um sexo sobre o outro e de um gênero sobre o outro e sobre si mesmo, porque o machismo maltratou muitos homens sensíveis. O cara nem era gay nem era o macho que disseram que tinha que ser. Quem era ele então? Agora tive mais clareza de que era bacana escrever eroticamente. É preciso mais narrativas sobre sexualidade feminina, feitas por mulheres e sem medo de serem taxadas como vulgares.

INTOLERÂNCIA
Acho que a gente está falando mais o que a gente pensa. E a internet dá um pseudo anonimato, então a pessoa tem coragem de escrever que ela é racista. Antes, não tinha. E acho muito melhor, embora ache horrível. É muito melhor que se diga ;eu sou racista, não gosto de você porque é preto; porque o Brasil precisa se perceber racista. E esse é um problema dos brancos, não dos negros. Assim como a homofobia é um problema

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