Correio Econômico

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Com a fatura da PEC do gastos liquidada, governo tentará reforçar a base aliada para enfrentar a sangrenta batalha da reforma da Previdência. Nesse caso, porém, terá que fazer concessões, acreditam especialistas

Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 14/12/2016 00:00

Primeiro passo


O governo deu um passo importante ontem, ao aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita, por até 20 anos, o aumento de gastos à inflação do ano anterior, mas o clima político extremamente conturbado exigirá esforço redobrado do Palácio do Planalto para manter unida a base aliada. A próxima batalha, a reforma da Previdência, será muito mais sangrenta diante da comoção que o tema provoca no país.

Para que o presidente Michel Temer consiga avançar na proposta do ajuste definitivo das contas públicas, será fundamental que a economia dê sinais efetivos de retomada nos próximos meses. O pessimismo que tomou conta dos agentes econômicos ; e das ruas ; agravou a crise. Não será tarefa trivial evitar que o Produto Interno Bruto (PIB) registre, em 2017, o terceiro ano seguido de queda. Já se fala em retração de até 1%.

Na avaliação da equipe econômica, o quadro realmente é grave, mas não se está jogando um jogo perdido. Os técnicos que monitoram sistematicamente os níveis da atividade acreditam que será possível reverter o mau humor se o governo se mantiver na direção correta, ou seja, sustentar o compromisso com o ajuste fiscal, independentemente das pressões que vem sofrendo. A aprovação da PEC do teto dos gastos é o sinal mais contundente desse compromisso.

A equipe econômica está trabalhando em duas frentes para dar um gás na atividade como complemento à arrumação estrutural das finanças do país, processo que trará resultados a médio e a longo prazos. De um lado, o Ministério da Fazenda lançará, amanhã, um pacote para tentar destravar o crédito e reduzir o custo de produção. De outro, o Banco Central vai acelerar, em janeiro, o corte da taxa básica de juros (Selic), de 13,75% ao ano, movimento que, para muita gente do governo, está atrasadíssimo.

A perspectiva é que, já no primeiro trimestre de 2017, os indicadores deem sinais de melhora, mesmo que lentamente. ;Sabemos que as incertezas são grandes, sobretudo na política, por causa do que pode vir das delações da Odebrecht;, diz um dos mais conceituados técnicos da equipe econômica. ;Mas não podemos ficar reféns da Operação Lava-Jato. O país precisa retomar seu rumo. A PEC do teto dos gastos nos tirou, definitivamente, da beira do precipício. Ganhamos um fôlego muito importante;, emenda.

Longe do fla-flu

Economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo afirma que a força política demonstrada pelo governo com a PEC do teto dos gastos foi importante, apesar de a medida ter sido aprovada em segundo turno no Senado por oito votos a menos que na primeira etapa. ;O momento é extremamento complexo. Mas o Planalto não pode ficar refém desse fla-flu político. O Brasil está quebrado, precisa de reformas estruturais para que possa voltar a crescer;, destaca.

Ele ressalta, porém, que, ao contrário da aprovação da PEC do teto dos gastos, que saiu do Congresso do jeito que foi encaminhada, a reforma da Previdência exigirá concessões por parte do governo. ;O projeto que está sendo analisado pelo Legislativo é muito mais forte do que o previsto. Isso fará com que o debate se estenda por um período mais longo;, avalia. O fundamental, contudo, é que as mudanças no sistema previdenciário sejam sancionadas até o fim do primeiro semestre de 2017, para que o limite imposto às despesas se fortaleça.

Com dificuldades ou não, acrescenta Espírito Santo, as reformas precisam avançar para que o ajuste fiscal se consolide e o BC possa cortar os juros mais rapidamente. Pelas projeções dele, a taxa Selic cairá três pontos percentuais ao longo de 2017. Serão seis quedas seguidas de 0,5 ponto cada uma. ;Mesmo em 10,75%, os juros continuarão elevados, caso a inflação fique no centro da meta, de 4,5%;, assinala. Isso quer dizer uma taxa real (descontado o custo de vida) de 5,9%, algo sem precedente no mundo civilizado.

Na visão do economista da Órama, todos os argumentos para que o BC corte os juros estão colocados. A inflação caiu, as empresas estão operando com uma elevada capacidade ociosa e o desemprego é assustador. A recessão não dá trégua. ;Derrubar os juros reais implica caminhar muito no ajuste fiscal;, frisa. ;Mas ainda estamos no início do processo.; No Palácio do Planalto, a torcida é para que a Selic ceda abaixo de 10%, caindo um ponto já em janeiro. ;Isso, no entanto, requer coragem. Resta saber se o BC a terá;, afirma um assessor de Temer.

  • De novo, as reservas

    ; Aliados do governo voltaram a pressionar para que o Banco Central mexa nas reservas internacionais do país a fim de estimular a economia.

  • Somente US$ 10 bi

    ; Um líder de partido diz que, ;com apenas US$ 10 bilhões das reservas;, o governo conseguirá tirar a construção civil de uma severa crise.

  • Reforço no emprego

    ; A ideia é carimbar o dinheiro das reservas para o financiamento ao mercado imobiliário, grande empregador, sobretudo de mão de obra menos qualificada.

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