É quase Natal

É quase Natal

postado em 14/12/2016 00:00


Começo a escrever estas linhas às 6h de terça-feira, enquanto acompanho um grupo de ativistas e jornalistas de Aleppo pelo WhatsApp. ;Eu estou vivo;, acaba de publicar um sírio de nome Monther. As últimas horas têm sido infernais para aqueles que resistem na parte leste da segunda maior cidade da Síria. As denúncias de atrocidades e de execuções sumárias se multiplicam, à medida que as tropas de Bashar Al-Assad retomam o controle dos bastiões rebeldes. Mulheres e crianças estariam sendo dizimadas em um front que nunca lhes pertenceu.

Por meio do Twitter, Abdulkafi Alhamdo tinha feito um apelo emotivo, horas antes. ;Por favor, salvem a vida de minha filha e as de outras crianças. Este é o apelo de um pai;, clamou. ;Por que este silêncio? Pessoas estão sendo eliminadas. Pessoas estão caindo pelas ruas, feridas, e ninguém as ajuda;, acrescentou. É quase Natal. Enquanto famílias pensam em como será farta a ceia na noite santa, Aleppo queima e sangra. No lado oeste da cidade, partidários do regime celebram um provável ponto de virada na guerra civil que se estende por mais de 5 anos e custou quase meio milhão de vidas. Não muito distante dali, a comemoração contrasta com a dor.

As Nações Unidas acabam de denunciar que forças aliadas a Damasco invadiram casas e executaram civis à queima-roupa, sem distinção de sexo ou idade. Crianças estão sendo assassinadas neste exato momento, enquanto muitos de nós estamos ocupados demais em planejar o Natal. Alguém de Aleppo publica fotos de civis em fuga. Talvez encontrem a morte pelo caminho. Quem ganhar a paz terá de conviver com o trauma e a dor de um passado enterrado na estupidez e na sanha pelo poder. O mundo se faz de surdo para a tragédia humanitária. O mundo fecha os olhos para o horror e lava as mãos.

Os responsáveis pelas atrocidades em Aleppo têm de ser levados ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, para serem julgados e punidos com o máximo rigor da lei. Não é possível que centenas de milhares de vidas sejam ceifadas e nada ocorra. Os líderes e chefes militares, bem como aliados de Damasco que perpetraram as matanças, precisam ser tratados como criminosos de guerra. E a comunidade internacional deve se unir para curar as cicatrizes da guerra civil e reerguer a Síria.




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