Chanceler executivo

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Donald Trump confirma Rex Tillerson, aliado de Moscou, para chefiar o Departamento de Estado, e preocupa republicanos

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 14/12/2016 00:00
 (foto: Michael Klimentyev/AFP
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(foto: Michael Klimentyev/AFP )


Sem que a desconfiança sobre a relação entre o futuro governo de Donald Trump e os negócios de sua família estivesse totalmente superada, a indicação de Rex Tillerson para chefiar o Departamento de Estado norte-americano intensificou as preocupações sobre os possíveis conflitos de interesses na gestão do republicano. No comando dos negócios globais da petrolífera ExxonMobil, o nomeado pelo presidente eleito para liderar a diplomacia dos Estados Unidos fez oposição às sanções impostas por Washington a Moscou, em retaliação à anexação da Crimeia, e ao Irã, em resposta ao desenvolvimento do programa nuclear. Com bilhões de dólares em jogo e visto como um homem próximo às autoridades russas, o nome de Tillerson provocou a reação de legisladores que se preparam para sabatinar o escolhido. Para o Departamento de Energia, a expectativa é que o republicano nomeie o ex-governador do Texas, Rick Perry.

Apesar de não contar com um histórico no serviço público, Tillerson acumula experiência com a negociação de acordos ao redor do mundo. O atributo foi destacado pela equipe de transição de Donald Trump ao escolher o executivo. O engenheiro texano, no entanto, deve ser aprovado pelo Senado americano para poder assumir o posto no gabinete do presidente eleito.

Ao longo de mais de duas décadas de tratativas com autoridades de Moscou, Tillerson conseguiu fechar parcerias entre a ExxonMobil e a petrolífera estatal russa Rosneft. Os negócios da companhia americana no país, no entanto, foram diretamente afetados pelas sanções contra Moscou. Segundo o jornal The New York Times, um dos acordos ; estimado em US$ 500 bilhões ; se refere à exploração de petróleo na Sibéria. Além de o forte vínculo entre o engenheiro texano e o setor privado preocupar legisladores, a particular proximidade com o presidente russo, Vladimir Putin, deve ser um dos principais alvos das questões, tanto de senadores democratas quanto republicanos.

Nomes de peso do Partido Republicano, como John McCain, Marco Rubio e Lindsay Graham manifestaram preocupação com a escolha. Se apenas o trio de senadores decidir se unir à bancada democrata para rejeitar a nomeação presidencial, Tillerson pode ser vetado pela casa.

Nova abordagem

Para Daniel Serwer, professor de relações internacionais da Universidade Johns Hopkins, entre todas as inconsistências da agenda política de Trump, o desejo de se aproximar de Moscou se tornou ainda mais sólido com a escolha do engenheiro. O estudioso recorda que Trump não apresentou as mesmas preocupações que o atual governo em relação à anexação da Crimeia ou ao papel dos russos na guerra síria. Serwer avalia que esses são os temas que devem merecer a atenção dos senadores durante audiências com Tillerson.

Leonardo Paz, cientista político e coordenador de estudos e debates do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), avalia que a escolha de Tillerson pode facilitar as tratativas entre Moscou e Washington, mas considera a dinâmica ;complicada; para a política americana. ;Ele certamente identifica a Rússia como um parceiro a ser engajado, mas essa é uma visão diferente da maioria dos americanos, que olha para a Rússia como ameaça internacional.;

Paz crê que, caso o executivo seja confirmado no Departamento de Estado, os limites impostos nas negociações com Moscou podem mudar. ;Trump tem preocupação marginal com questões como a guerra na Síria, e a visão sobre o que ocorreu na Crimeia e na Ucrânia são diferentes das de Barack Obama e Hillary Clinton. Isso pode aumentar as possibilidades de engajamento;, avalia. O cientista político, porém, ressalta que uma abordagem mais próxima a Moscou pode atrair resistências do Congresso. ;Mesmo que Trump tenha maioria nas duas Casas, há legisladores republicanos que o odeiam;, recorda.


Jovem preso com faca e fogos em Nova York
A polícia de Nova York prendeu um jovem de 19 anos que tentou entrar na Trump Tower, onde reside o presidente eleito Donald Trump, portando faca e fogos de artifício, na noite de segunda-feira. Autoridades não divulgaram informações sobre a identidade do rapaz, que foi acusado por posse de arma e explosivos. O incidente foi o primeiro do tipo desde que Trump venceu as eleições. Mesmo continuando aberta ao público, a segurança na Trump Tower foi reforçada. Na semana passada, um motorista de caminhão foi detido quando tentou entrar à força na Quinta Avenida.

Temer e Trump discutem agenda
O governo brasileiro e a assessoria do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, pretendem elaborar uma agenda bilateral para incentivar o crescimento econômico nos dois países, um processo a ser iniciado logo após a posse do republicano, em 20 de janeiro. Segundo o Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer e o futuro colega conversaram por telefone, ontem de manhã, e concordaram em promover reuniões entre as equipes a partir de fevereiro.

Descrito como ;bastante amigável e positivo;, o contato entre Temer e Trump ocorreu às vésperas da chegada ao Brasil do subsecretário de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Thomas Shannon. O diplomata, que chefiou a missão americana em Brasília entre 2009 e 2013, visitará a capital federal entre quinta-feira e sábado, depois de uma passagem pelo Chile.

A pouco mais de um mês da mudança de comando na Casa Branca, Shannon tem como objetivo explorar as oportunidades para aprofundar as relações bilaterais. Ele se reunirá com o ministro José Serra e outros integrantes do governo brasileiro, além de representantes do setor empresarial.

Embora Temer e Trump tenham avaliado que as relações entre Brasília e Washington são boas, a dupla considerou que os laços entre os dois países ;ficarão ainda melhores;. Durante o telefonema, o presidente brasileiro salientou que os empresários do ambos os países se conhecem bem e ressaltou o interesse do país em atrair investimentos americanos.

Segundo o Planalto, Trump cumprimentou o colega pelas medidas adotadas a fim de promover o crescimento no país e manifestou condolências pela queda do avião que transportava a equipe da Chapecoense, no fim de novembro, uma tragédia que deixou 71 mortos e seis feridos. (GFV)


Perfil
Uma vida de petrodólares

A ExxonMobil resume a vida adulta de Rex Tillerson, 64 anos, o escolhido de Donald Trump para comandar a diplomacia norte-americana a partir de 20 de janeiro. Há mais de 40 anos, o engenheiro de produção recém-formado na Universidade do Texas, em Austin, ingressou na gigante do petróleo ; na época, uma das ;sete irmãs;, como eram conhecidas as múltis do setor. Foi galgando postos até tornar-se o executivo-chefe (CEO), em 2006. Tinha a aposentadoria planejada para o ano que vem.

A despeito da história profissional e pessoal, o futuro se

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