Se caiu na rede, é torcedor brasileiro

Se caiu na rede, é torcedor brasileiro

Elite do futebol europeu ganha seguidores brasileiros no Facebook mais rapidamente do que muitos times da Série A. "Geração PlayStation" também influencia torcida

Braitner Moreira Victor Gammaro*
postado em 14/12/2016 00:00



Cada brasileiro passa, em média, 3 horas e 40 minutos on-line pelo celular todos os dias. A maior parte desse tempo é gasto em acesso a redes sociais, segundo pesquisa da GlobalWebIndex. É um recorde mundial. Um mercado tão amplo para o crescimento dos clubes da Série A, contudo, frequentemente acaba ignorado.

Apenas três times do Brasileirão alcançaram 1 milhão de seguidores no Instagram; nenhuma equipe chegou a meio milhão de assinantes no YouTube. No Facebook, só três equipes têm mais curtidas entre usuários daqui do que os 5,6 milhões de brasileiros do Barcelona: Corinthians, Fla e São Paulo.

Nosso crescimento não é necessariamente animador. Um levantamento inédito do Correio mostra que alguns gigantes do futebol europeu têm conquistado mais seguidores do Brasil do que times tradicionais da Série A. No Facebook, rede social mais utilizada do país, o Bayern de Munique ganhou, neste ano, em média, 25.185 fãs brasileiros por mês. Só Flamengo, Grêmio e Palmeiras, todos embalados por grande fase no decorrer da temporada, o superam.

Entre os 12 clubes mais tradicionais do país, o Fluminense tem um rendimento pior na internet. A cada mês, a página oficial tricolor recebe 1.624 novos fãs. O Barcelona, para efeito comparativo, vê movimento seis vezes maior. O Flu posta em português; o Barça, em espanhol, inglês e catalão. As equipes atualizam seus perfis com a mesma frequência, mas o time de Messi e Neymar ganha na interação e na multimídia.

Em outros dois rincões da internet, os maiores clubes do mundo falam português. Os sites oficiais de Barcelona, Manchester City, Paris Saint-Germain e Real Madrid têm versões na língua de Camões, com produção exclusiva de conteúdo no idioma. A Roma colocou em votação no Twitter em qual língua estaria escrita sua próxima página. O português ficou em terceiro lugar, atrás de árabe e espanhol.

Do lado de cá da tela

Para além das contas oficiais, empilham-se perfis de fãs em língua portuguesa. No Twitter, times modestos, do nível de Bournemouth, Real Sociedad e Schalke 04, têm atualizações diárias feitas por fãs.
Algumas torcidas ultrapassaram o limite da internet. A Unidos por el Real Madrid é considerada a maior organizada gringa no país. As atividades da peña ; como são chamados os movimentos de torcedores espanhóis ; são acompanhadas por mais de 40 mil pessoas.

Os associados da torcida brasileira do Real Madrid têm uma série de vantagens, como descontos em restaurantes espanhóis e camisas autografadas pelo elenco. A torcida é reconhecida pelo clube e tem até página própria no site oficial do time. O ponto de encontro dos fanáticos é um bar de São Paulo, no qual cerca de 100 aficionados se reúnem para acompanhar os jogos mais importantes, com faixas e bandeiras. ;Uns torcem igual para o Real Madrid e para um clube do Brasil. Para mim, é estranho;, diz Alessandra Brandão, 26, presidente da peña.

*Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles


;Uns torcem igual para o Real Madrid e para um clube do Brasil. Para mim, é estranho;

Alessandra Brandão, presidente da torcida oficial do Real Madrid no Brasil


Na estante
;Nós consumimos os produtos como produtos e consumimos o seu significado por meio da publicidade. A publicidade é a própria sociedade massificada, a qual, com a ajuda de um sinal arbitrário, induz à receptividade e mobiliza a consciência. Nós fomos completamente absorvidos por modelos, fomos completamente absorvidos pela moda, fomos completamente absorvidos pela simulação.;

Jean Baudrillard, 2001
Escritos selecionados




O poder do Fifa, sem Fla nem Timão

Sempre que uma criança pressiona quadrado ou xis ; PlayStation ou Xbox ; num desses controles remotos sem fio cheios de tecnologia para marcar um golaço com Messi, ela fica perto de desenvolver mais simpatia do que antipatia pelo time com o qual joga. ;Graças aos videogames, a proximidade entre fã e ídolo aumenta. Quando o jogador manipula o controle, há uma convergência de identidade, como se os dois se tornassem os mesmos;, explica Sascha Schmidt, professor da Escola de Gestão Otto Beisheim, em Frankfurt. ;Um torcedor de futebol costuma escolher um superstar como modelo de comportamento ou como meta final de suas ambições. Afinal, o jogador tem tudo: dinheiro, fama, poder e habilidade.;

Juntos, Fifa e Pro Evolution Soccer venderam 580 milhões de cópias nos últimos 10 anos. A oferta de jogos também chega aos games de simulação de gestão, tais como Football Manager, Goal United e Football Identity. O sucesso das franquias é tão grande que, sozinho, o Fifa é responsável por um quarto do faturamento de sua produtora, a EA Sports.

Esses jogos influenciam na decisão dos jovens de escolher ou não uma equipe para apoiar. ;Isso não é uma informação que vem do núcleo familiar. Agora, a criança tem capacidade de escolher, porque tem uma visão mais ampla dos times e dos eventos;, avalia a psicopedagoga Telma Gualberto.

A existência de uma geração movida a PlayStation e Xbox não chega a ajudar os clubes mais populares do Brasil. Corinthians e Flamengo estão fora do Fifa, jogo de futebol mais vendido do mercado, há três edições. A dupla fechou exclusividade com a Konami, produtora do Pro Evolution Soccer, em troca de R$ 600 mil. O problema é que a série Fifa, hoje, vende 15 vezes mais cópias do que o Pro Evolution Soccer ; que sofre para chegar à barreira do milhão, enquanto o concorrente cresce a cada ano.

;No videogame, o time brasileiro quer ganhar dinheiro da empresa que vai fazer o jogo. Na realidade, tem de estar lá no jogo mesmo que seja de graça, para os garotos escolherem. A clientela se renova, mas os clubes não conseguem entender isso;, aponta Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

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