Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Chove chuva

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 14/12/2016 00:00
A seca castigou Brasília este ano. A impressão que tive foi que a cada gota que secava na reserva do Descoberto, principal fonte da água que abastece a capital, uma gota de suor rompia a minha pele e evaporava para a atmosfera. O céu azul acinzentado característico do período de estiagem não dava nem pista de quando devolveria, a mim e à bacia hidrográfica, o líquido que nos tomou o sol forte e o tempo de umidade em nível crítico.

Na última semana, em meio a um dos temporais que lavou a Esplanada dos Ministérios, minha vontade era a de parar o carro, descer e aproveitar a água que jorrava sem piedade ou cerimônia sobre a Catedral. Era do que precisávamos ; e continuamos precisando. O prenúncio de uma crise hídrica sem precedentes na história da cidade colocou em alerta moradores da capital, mesmo diante da aparente falta de um plano claro do governo para a situação que se desenhava havia anos.

Nós, cidadãos, também compartilhamos parte da culpa, ao gastar 80% a mais da quantidade de água que organismos internacionais consideram o ideal por habitante a cada dia. O uso indiscriminado para a limpeza da casa, os banhos demorados, a lavagem de pilotis que dificilmente se manterão asseados por mais de alguns minutos, atingidos que são, constantemente, pelas rajadas de vento que levantam a poeira de cor vermelha do barro do Planalto Central.

Eu mesma me pego, vez ou outra, com pensamentos baseados exclusivamente em meu próprio conforto. Ao sair de casa nestes últimos dias, sempre deixo preparado um guarda-chuva, mas carrego um desejo egoísta de que, naqueles poucos segundos de ida até o carro e do carro ao trabalho, não caia uma gota que possa atrapalhar o deslocamento. No entanto, se mais de dois dias se passam sem que o céu amanheça nublado, com nuvens carregadas, a preocupação com a falta de água se reacende.

Especialistas garantem que a seca deste ano foi pior que a de 2015. Os níveis registrados pelo reservatório do Descoberto quando entrou o período de chuvas comprovou isso: quase metade do que havia sido registrado no mesmo período do ano passado. O que preocupa é que, mesmo com a quantidade de chuva razoável que vem sendo registrada, foi necessário aumentar taxas e viver na eminência de um racionamento. Espero que a chuva que molhou a Esplanada naquele dia volte frequentemente para lavar o egoísmo nosso de cada dia e encha os lares de consciência.

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