Trégua em ruínas

Trégua em ruínas

Colapso de novo cessar-fogo intensifica os temores da comunidade internacional em relação à integridade dos civis de Aleppo. Moradores da segunda maior cidade do país relatam %u201Cbombardeio horrível%u201D. Rússia e Turquia concordam em salvar pacto com rebeldes

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 15/12/2016 00:00
 (foto: George/AFP )
(foto: George/AFP )

Fatemah, mãe de Bana Alabed, de 7 anos, fez um desabafo pelas redes sociais, na manhã de ontem, pouco após explosões voltarem a sacudir o leste de Aleppo, decretando o fracasso de mais um cessar-fogo. ;Querido mundo, há um intenso bombardeio neste exato momento. Por que você está silencioso? Por quê? Por quê? Por quê? O medo está matando a mim e aos meus filhos;, escreveu. Perto dali, o jornalista Rami Zien, 25, buscava serenidade em meio ao caos. ;Tem sido um dia muito louco. Há muitas mortes, além de munições e estilhaços em cada beco da cidade;, contou ao Correio. Segundo ele, os bombardeios tiveram início por volta das 9h (5h em Brasília), quatro horas após o prazo determinado para o início da retirada dos rebeldes com suas armas leves. ;Eu podia jurar que estivesse chovendo aqui em Aleppo. Mas eram projéteis de artilharia, morteiros e foguetes caindo do céu. Foi um bombardeio horrível;, disse Zien.

No campo diplomático, os presidentes Vladimir Putin (Rússia) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia) conversaram por telefone e reforçaram que o pacto alcançado na terça-feira deveria ser implementado. Ambos teriam concordado com a interrupção das violações do acordo, que indicaria o fim da resistência da oposição e a vitória do regime de Bashar Al-Assad. Em entrevista à rede de tevê russa RT, o ditador sírio declarou que a queda de Aleppo significa a ;derrota dos terroristas; e assegurou que o fim da guerra depende da vontade do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, a quem considera um ;aliado natural;.



À zero hora de hoje (20h de ontem em Brasília), rebeldes anunciaram que novo cessar-fogo entrou em vigor. ;Não espero muito da nova trégua, pois não confio no regime e no governo russo;, desabafou o fotógrafo Basem Ayoubi, 24 anos. Ele afirmou que caças ainda sobrevoavam Aleppo. Porta-voz da facção rebelde Ahrar Al-Sham, Ahmed Karali usou o perfil no Twitter para confirmar que a suspensão dos combates começaria ontem à noite. ;Os feridos e os civis começam a ser retirados amanhã (hoje).; Por meio de grupo no WhatsApp frequentado por jornalistas e por moradores de Aleppo, surgiram denúncias de que os ataques prosseguiam, com menos intensidade. A informação sobre o acordo foi desmentida por uma fonte próxima ao regime de Damasco.

Em meio ao conflito, o desespero supera o absurdo. Uma fonte síria confirmou à reportagem que alguns habitantes de Aleppo pedem a líderes religiosos autorização para assassinarem as filhas e esposas, antes que elas sejam estupradas pelas forças de Al-Assad. ;Ante o medo crescente e a agitação da mídia em relação a uma possível invasão de partes remanescentes de Aleppo, eu recebi poucas dúvidas, que indicam o horror e o despero dos civis. É um hábito das tropas sírias se vingarem dos civis, por considerá-los simpatizantes dos ;terroristas;. Creio que a questão foi retórica e teve por objetivo fazer com que o mundo desperte. A pergunta mais séria que recebi de várias sírias de Alepo foi: ;Uma mulher tem permissão para cometer suicídio, com medo de ser estuprada?;;, revelou ao Correio o estudioso islâmico e líder religioso sírio Muhammad Al-Yaqoubi. ;Nossa resposta a ambas as questões foi ;não, é proibido se suicidar ou matar por medo de estupro, pobreza, ou para proteger a honra da família.;;

Genocídio

Morador do leste de Aleppo, Monther Etaky, 28, afirmou ao Correio que iranianos e russos sitiavam a cidade. ;Os iranianos cancelaram o cessar-fogo firmado na terça-feira, e o regime de Damasco tenta ampliar o território. Precisamos que o mundo detenha o genocídio e leve o regime de Al-Assad ao banco dos réus.;
Por e-mail, Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch, exortou a comunidade internacional a intensificar a pressão sobre Putin. ;Uma sessão de emergência da Assembleia Geral da ONU deveria pressionar pelo fim dos ataques a civis, pelo livre acesso à ajuda humanitária e pelo começo de um esforço de investigação para coletar evidências a serem mostradas na Corte.;

Ponto de vista

Por Kenneth Roth

Influência
de Moscou


;Nas áreas do leste de Aleppo tomadas pelas forças pró-governo, há motivos para profunda preocupação. As tropas têm praticado execuções sumárias de civis , incluindo mulheres e crianças, alvejando famílias de rebeldes. Aqueles homens jovens retirados da região estão detidos nas prisões de Al-Assad, famosas pela tortura, ou foram recrutados pelo Exército sírio. A chave para deter as atrocidades repousa, acima de tudo, na Rússia. O apoio militar de Moscou é crucial para a sobrevivência do governo sírio. Por isso, a Rússia tem influência suficiente para forçar o fim dessas atrocidades.;

Diretor executivo da Human Rights Watch (HRW)

Por Philip Luther

Pesadelo
para civis


;O que ocorre em Aleppo é um pesadelo para os civis. Todos os que ficaram no leste da cidade estão espremidos em uma área de 1,5km2, com poucos locais para buscarem abrigos. Todas as partes do conflito devem permitir que os civis que desejarem fugir dos combates tenham passagem segura para abandonar a área. As forças do governo de Bashar Al-Assad e aliados, incluindo a Rússia e o Irã, devem permitir a fuga do leste de Aleppo, de forma segura.;

Diretor de Pesquisa e Advocacia da Anistia Internacional para o Oriente Médio e o Norte da África

Vozes de Aleppo

;Muitas mulheres preferem morrer aqui, no leste de Aleppo, a fugirem para o oeste e serem violentadas. Há casos de estupro ocorrendo aqui. Nossos costumes, nossas tradições e nossa religião não aceitam isso. A violência sexual não adere a padrões éticos, religiosos e humanitários.;

Basem Ayoubi, 24 anos, fotógrafo, morador do leste de Aleppo

;Ninguém comenta nada sobre os motivos pelos quais os combates recomeçaram. Estamos confinados numa área muito reduzida. Se formos expostos a disparos de morteiros ou de outras armas, todos ficaremos feridos. As forças sírias nos acusam de ter violado o cessar-fogo.;

Rami Zien, 25 anos, jornalista, morador do leste de Aleppo

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