Acessibilidade com riscos

Acessibilidade com riscos

postado em 19/12/2016 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press
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(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

Somente entre janeiro e setembro deste ano, 77 pessoas perderam a vida em acidentes com motos. Entre eles, Carlos André Pereira de Sousa, 21 anos. Em julho, o jovem se envolveu em um acidente com um caminhão na BR-020, sentido Planaltina-Sobradinho. Em agosto, o militar do Exército Yuri do Prado Guimarães morreu numa colisão envolvendo um carro e um caminhão, na Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB).

O servidor Célio Souza Vasconcelos Ferreira, 50 anos, há dois anos, vive o drama da reabilitação após um grave acidente de moto a caminho de Goiânia. Após três meses na UTI e um semestre na cadeira de rodas, ele ainda necessita de uma bengala para andar. Já fez quatro cirurgias e ainda passará por mais duas.

Quando pensou que estava superando, teve outra surpresa. Somente este ano descobriu uma fratura grave em três vértebras, também resultado do acidente. ;Acordei no hospital de Anápolis. Vim transferido para o DF e fiquei três meses na UTI. Quebrei a bacia e os dois pés. Tive que alugar uma cama hospitalar e contratei uma enfermeira. Ainda não recuperei as forças da perna esquerda e meu equilíbrio está comprometido. Estou me recuperando aos poucos;, conta. Célio ainda sente vontade de pilotar moto. Mas não pode. ;Qualquer tombinho pode me deixar numa cadeira de rodas por conta da fratura das vértebras;, lamenta.

Para alguns, a moto é a chance de mudar de vida. Aos 28 anos, Igor Ferreira viu na profissão de motoboy a oportunidade de virar dono do próprio negócio. Migrou para o Distrito Federal há sete anos, vindo de Nova Iorque, interior do Maranhão, onde grande parte das pessoas pilota sem habilitação, sem capacete e antes de completar 18 anos.

Aos 23 anos, Igor comprou a primeira moto para trabalhar como motoboy terceirizado de um laboratório. Um tempo depois, assumiu o contrato de prestação de serviço e contratou três motoboys para ajudá-lo. Para quem chegou com a roupa do corpo, a vida está melhor. Mas o risco é uma constante. ;A começar pelos próprios motociclistas. Alguns, mais apressados, ultrapassam a gente no corredor, em alta velocidade. Os carros não respeitam também. Mas é melhor aqui do que em Nova Iorque;, compara.

O relato de Igor sobre o trânsito na cidade natal revela uma realidade comprovada em pesquisa. Eduardo Vasconcelos, da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), diz que um estudo sobre a motocicleta na América Latina revela que uma das causas para a explosão da frota é a liberdade e a acessibilidade para quem a adota como meio de transporte. ;Ela é barata na aquisição e gasta pouca gasolina. Muitos deixaram o transporte coletivo e passaram a usar a motocicleta. Nas cidades do Norte e do Nordeste, é comum o uso sem equipamentos mínimos de segurança e também o transporte de crianças;, adverte o assessor.

Uma das consequências mais graves desse modelo é o incremento da violência no trânsito. No livro Risco no trânsito, omissão e calamidade ; impactos do incentivo à motocicleta no Brasil, Eduardo Vasconcelos revela que, entre 1998 e 2013, 2 milhões de pessoas foram afetadas de forma trágica pela violência dos acidentes sobre duas rodas. Desse total, 220 mil morreram e 1,6 milhão sobreviveram com alguma deficiência física para a vida toda.

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