Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 10/02/2017 00:00
Batuque na mesa

Nesta semana, evoquei uma história da passagem do grande percussionista pernambucano Naná Vasconcelos pelo Feitiço Mineiro, bar comandado por Jorge Ferreira. Naquela noite, Naná assistia a um show e ficou com vontade de dar uma canja. No entanto, ninguém levou bateria e Naná resolveu apelar para as panelas de cozinha. Desaprovou categoricamente a aptidão percussiva dos utensílios. Por isso, no outro dia, Jorge tomou um empréstimo e foi a São Paulo comprar panelas que tivessem boa percussão, seguindo as recomendações de Naná.

O batuque na cozinha do bar de Jorge Ferreira ressoou no jornalista e poeta Paulo José Cunha, que enviou e-mail lembrando dos tempos de aventura da vida de estudante da UnB, morando num quartinho alugado ali na Asa Norte com mais dois colegas, ;ao tempo em que a gente era feliz ; e sabia!” Vamos a seu relato.

;Naquela época, podia faltar para o do feijão e o do bife, mas nunca faltou ; benza Deus! ; para o da cachacinha marvada nem para o da cerveja que nos gelava a goela seca. Mas, por curioso que possa parecer, embora vivêssemos tempos áridos da ditadura, escolhíamos os bares não pelos tira-gostos, nem pela qualidade dos preciosos líquidos mas... pelas mesas! Isso mesmo: pelas mesas. Mais precisamente, pelo som que produziam.

Como adorávamos batucar nelas, muitas vezes abandonamos alguns bares porque as mesas não davam bom som. Lembro-me bem do dia em que chegamos ao Zebrinha, ali na 404 Norte. Pedimos uma gelada. Durvalino Filho, hoje publicitário em Teresina, começou a batucar. De repente, parou, coçou a testa e afirmou, pesaroso: ;Vamos suspender a bebida e ir embora. Não dá som;.

Carlão, meu primo, que não tinha lá muito ritmo e não ligava pra isso, assustou-se: ;Mas o garçom já vem ali, com a cerveja aberta!” E Durvalino: ;Então, vamos pedir que deixe aqui na mesa ao lado, onde um pessoal acabou de chegar;. E assim foi feito. Levantamos e deixamos o garçom com cara de quem não entendeu nada ; e não entendeu mesmo.

E partimos para o Bar do Mexicano, lá na ponta da mesma comercial, em sentido contrário. A cerveja de lá não estava assim um nariz de foca, mas, com jeito, descia. Já o som das mesas... era um primor! Caímos na batucada, sempre aberta com o hino da época: Apesar de você, com o qual homenageávamos com fervor o general de plantão Emílio Médici e sua camarilha.

E assim foi durante os anos em que permanecemos morando ali e estudando na UnB. Ao passar de ônibus, ao olharmos as mesas de fórmica do bar recentemente inaugurado, instalações cheirando a tinta fresca, e vinha o veredito implacável: ;Mesa de fórmica... Um lugar tão bonito, a cerveja está gelada, dá até pra ver daqui o pozinho do gelo recobrindo a garrafa! Mas, que pena, mesa de fórmica não dá bom som;. Pra você ver como até uns estudantezinhos bobos igualmente tinham a percepção da boa sonoridade dos objetos, como Naná e as panelas do Feitiço do Jorge Ferreira, que não rendiam um mísero batuque.;



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