Itamaraty muda curso de formação de diplomatas

Itamaraty muda curso de formação de diplomatas

Disciplinas como direitos humanos e desenvolvimento sustentável dão lugar a técnicas de negociação e segurança externa. Diretor nega "guinada à direita"

» VERA BATISTA
postado em 23/02/2017 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press - 16/6/16)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press - 16/6/16)


O Instituto Rio Branco, responsável pela seleção e formação dos candidatos à carreira diplomática, mudou o currículo para os alunos que iniciaram o curso em 2017. A decisão foi do embaixador José Estanislau do Amaral Souza Neto, que assumiu a direção-geral em outubro de 2016. Críticos das mudanças dizem que elas teriam cunho ideológico, já que disciplinas como direitos humanos e desenvolvimento sustentável foram excluídas, dando lugar a assuntos como técnicas de negociação e defesa, segurança e política externa.

Aos que acusam o Instituto de ter ;dado uma guinada à direita;, Amaral responde que o Rio Branco ;nunca funcionou na base da ideologia;. ;Nossa luta é pela democracia. Tenho uma política de portas abertas;, assinalou. Até porque, segundo ele, a antiga disciplina direitos humanos não tinha como foco a análise da situação doméstica. ;Não era sobre a realidade brasileira. Era uma visão brasileira do debate internacional;, explicou. Além disso, as trocas foram feitas após ampla discussão com alunos e acadêmicos. Ele não quis interpretar o motivo das queixas contra a renovação da grade, mas deixou passar que os assuntos que poderiam causar polêmica ;foram pinçados; entre tantos substituídos.

Técnicas de negociação, por exemplo, era uma demanda antiga e de fundamental importância, na análise do embaixador. ;Antes, havia apenas uma transmissão de experiências. A tradição brasileira de negociação era transmitida verbalmente;, assinalou. Uma das críticas que se fazia frequentemente sobre o curso de formação, detalhou, era a característica autorreferente ; voltada para dentro da organização, para a reprodução dos métodos de trabalho e das posições tradicionais do Brasil, sem encorajar a reflexão e o olhar para fora. Por isso a reorganização teve que ser feita, argumentou.

Foram criadas ainda as disciplinas política internacional, diplomacia e relações públicas e história dos países da América Latina. Os cursos de direito internacional público e economia foram ampliados para dois semestres. Tomaram o lugar de palestas e estágios, cerimonial e protocolo, diplomacia consular e econômica, direitos humanos e temas sociais, e diplomacia e promoção comercial.

A última seleção para o Itamaraty, em 2015, ofereceu 30 vagas e mais de 6 mil candidatos se inscreveram, lembrou Amaral. Ele destacou que a idade média dos concorrentes, atualmente em torno de 30 anos, mudou muito nas últimas décadas. ;Quando fiz o concurso, em 1983, a faixa etária era em torno de 24 anos;, disse. À época, não era exigido nível superior completo. Hoje, muitos já chegam com mestrado e doutorado. O nível de dificuldade nos exames aumentou proporcionalmente ao tamanho da concorrência, disse o diretor-geral.

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