Promoção revolta familiares

Promoção revolta familiares

Parentes do brasileiro confundido com terrorista e assassinado por policiais de Londres pretendem reabrir o processo na Justiça, após Cressida Dick, líder da operação que matou o eletricista mineiro, assumir o comando da Scotland Yard

Rodrigo Craveiro
postado em 23/02/2017 00:00
 (foto: Leon Neal/AFP)
(foto: Leon Neal/AFP)



Indignação, revolta e tristeza. Familiares de Jean Charles de Menezes, executado com sete tiros pela Polícia Metropolitana de Londres, em 24 de julho de 2005, experimentam esses sentimentos desde que receberam a notícia sobre a promoção da oficial que chefiou a operação que culminou na morte do eletricista mineiro de 27 anos. Cressida Dick, 56, se tornou ontem a primeira mulher a ser promovida chefe da Scotland Yard em 188 anos de história da instituição. Ela substituirá Bernard Hogan-Howe. ;É uma líder excepcional e tem uma visão clara do futuro da Polícia Metropolitana;, declarou a ministra do Interior do Reino Unido, Amber Rudd. ;Assume, agora, um dos trabalhos mais exigentes, importantes e de alto perfil da polícia britânica, em um contexto de alerta terrorista elevado;, acrescentou. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, saudou a promoção de Cressida e destacou a ;longa e distinta carreira;. ;Sua experiência e habilidade brilharam ao longo desse processo. (;) Este é um dia histórico para Londres e de orgulho para mim, enquanto prefeito.;

Cressida Dick publicou nota em que reconhece ;a grande responsabilidade e uma oportunidade incrível;. ;Eu estou imensamente ansiosa para proteger e servir ao povo de Londres, e trabalhar de novo com as mulheres e os homens fabulosos da Met (Polícia Metropolitana). Obrigada a todos que me ensinaram e me apoiaram ao longo do caminho;, declarou.

O Correio apurou que os pais de Jean Charles, Matozinhos e Maria Menezes, avisaram que pretender reabrir o caso na Justiça. ;Para nós, é algo muito triste. Depois de matarem um inocente, agora vai ser promovida. É muita falta de consideraçao. Meus pais disseram que ficaram desapontados e que não esperavam uma coisa dessas. Estão muito tristes;, afirmou à reportagem Geovani Menezes, irmão do brasileiro morto. ;Nós esperamos justiça;, emendou, ao reiterar que pretendem acionar a Justiça.

Para Kátia Armani, 39 anos, prima de Jean Charles, a promoção de Cressida é ;vergonhosa;. ;É muito triste ver uma pessoa como ela, que matou um inocente, ser promovida a chefe de segurança da polícia de Londres. Essa mulher é preparada para isso? Ou vão esperar matar mais inocentes? É uma vergonha!”, desabafou, por meio da internet. Também prima, Patrícia Armani considerou ;um desastre; a notícia. ;Estamos vivendo momentos tensos na Europa, com o terrorismo batendo às nossas portas, à iminência de um ataque. A polícia terá que se mobilizar novamente. A senhora Dick está preparada? Será que alguns civis não correm perigo?;, questionou ao Correio, a partir de Londres, onde ainda vive. Kátia recorda que a Operação Kratos foi repleta de erros.

Por sua vez, Alex Pereira ; primo de Jean que vivia na capital britânica à época da execução ; disse à reportagem que Cressida foi a responsável pela sequência de erros que levou ao assassinato. ;Ela mostrou despreparo e falta de respeito com as vítimas. Jean estava sentado no banco do metrô, lendo o jornal;, afirmou.

Carta aberta
Os familiares de Jean Charles publicaram carta aberta no jornal The Guardian, na qual protestam contra a nomeação. ;Não podemos esperar que se aceite o posto de oficial da polícia mais alto do país, do qual se espera que reúna os mais elevados padrões de profissionalismo, (;) seja ocupado por algué, que está claramente marcada por sua incapacidade de estar à altura desses requerimentos;, escreveram.



Memória

Execução a
sangue-frio


Em 7 de julho de 2005, atentados suicidas alvejaram o transporte público de Londres, matando 56 pessoas, incluindo os terroristas, e deixando 700 feridos. A Polícia Metropolitana (Scotland Yard) realizou uma grande caçada aos suspeitos de participarem do complô e de darem apoio aos extremistas suicidas. Bombas não detonadas foram encontradas dentro de estações de metrô e de um ônibus, na capital do Reino Unido. Em 22 de julho, a polícia perseguia dois terroristas que moravam no mesmo prédio do eletricista mineiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos.
Liderados por Cressida Dick, os agentes acreditavam que o brasileiro fosse Hamdi Adus Isaac ; suspeito de tentar detonar explosivos dentro do metrô, na véspera. Jean pulou as catracas da estação de Stockwell e foi baleado seis vezes na cabeça e uma no ombro pelos policiais da Scotland Yard. O caso deflagrou uma crise diplomática entre Brasília e Londres. Em 30 de março de 2016, a Corte Europeia de Direitos Humanos isentou os policiais pelo assassinato, depois de 11 anos de batalha legal.




Eu acho...

;Meus pais ficaram muito tristes por perderem um filho. Os responsáveis pela morte agora viraram heróis. Isso é inacreditável. Antes da morte do Jean, a Cressida não era conhecida. Agora, se promove através da desgraça de um inocente. Isso é desumano!”



Giovani Menezes, irmão de Jean Charles

;É um desastre! Uma mulher que comandou uma operação tão importante e fracassou totalmente, quando sua equipe matou uma pessoa inocente em público, ser comissária da polícia de Londres. Um cargo tão alto e poderoso.;



Patricia Armani, prima de Jean Charles



;Essa mulher se deu muito bem com a morte (do Jean). Ela foi promovida e, agora, é chefe da polícia. Eu tive que lutar com unhas e dentes por justiça. No fim, fomos chantageados sobre
a questão do visto e fui impedido de entrar no Reino Unido. Agora, quem deveria estar pagando foi promovido.;



Alex Pereira, primo de Jean Charles




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