Carnaval em Brasília, patrimônio cultural

Carnaval em Brasília, patrimônio cultural

» CARLOS MADSON REIS Superintendente do Iphan no Distrito Federal
postado em 27/02/2017 00:00


O carnaval é uma festa popular surgida na antiguidade, possivelmente na Grécia, e disseminada em todo o mundo. Trazido para o Brasil pelos portugueses, sofreu fortes influências das culturas indígena e africana, tornando-se a mais popular festividade brasileira. Atualmente, abriga diversas manifestações, algumas das quais registradas pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro: Frevo, Maracatu Nação, Maracatu de Baque Solto, Matrizes do Samba, Samba de Roda do Recôncavo Baiano, entre outras. Os festejos acontecem no período anterior à quaresma e mobilizam multidões.

Nos últimos anos, em todo o país, temos assistido à revalorização do carnaval de rua ; em quantidade e diversidade ; com a volta de blocos carnavalescos ao espaço público, o que mostra o vigor dessa festividade. Em Brasília, não poderia ser diferente, além de blocos tradicionais, como o Pacotão (surgido em 1978, trata com irreverência as questões políticas do país), o Galinho de Brasília (irmão caçula do Galo da Madrugada de Recife) e o Asé Dúdú de Taguatinga (Que alia folia com a valorização da cultura afrodescendente), novos blocos surgiram e ganharam as avenidas da Capital, arrastando multidões. Estima-se, em 2017, 2 milhões de brincantes.

A Superintendência do Iphan no Distrito Federal, assim como ocorre nas demais cidades sob proteção histórica federal, apoia a valorização do carnaval como manifestação lúdica, popular e parte importante da riqueza cultural do país. A preservação patrimonial possui dimensões múltiplas e complementares, assim, ao lado dos aspectos festivo e cultural, não se pode esquecer a dimensão socioeconômica do carnaval, cuja celebração movimenta a economia das cidades, gerando emprego e renda para boa parte da população.

O palco maior das festividades carnavalescas é o espaço público. Os blocos e seus foliões ocupam indistintamente ruas, praças, avenidas e monumentos, inclusive, nas cidades históricas, que costumam ter frenéticos carnavais. Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Olinda, São Luís, assim como as cidades históricas mineiras são os exemplos mais eloquentes. Em Ouro Preto, cidade igualmente titulada pela Unesco como Patrimônio Mundial, por exemplo, o carnaval é uma festa importante do calendário da cidade, nos mostrando que folia e preservação do patrimônio cultural não são atividades excludentes.

Assim, é comum que nesse período se tomem medidas para proteger a integridade dos bens culturais acautelados pelo Iphan. Desse modo, esculturas, painéis, edifícios, entre outros, podem, por exemplo, receber cercamento temporário por tapumes. É preciso, também, controlar a exposição e a divulgação de engenhos publicitários dos patrocinadores do carnaval, cuidado que se assemelha ao da Justiça Eleitoral, que, para coibir abusos durante as eleições, fixou regras para o uso e a proteção do espaço público nesse período.

Em Brasília, destaca-se como positiva a recente criação de um grupo de trabalho intragovernamental, liderado pela Secretaria de Estado de Cultura, e que conta com a participação do Iphan para estudar medidas de utilização do espaço público no período carnavalesco. O esforço é instituir uma rede de atenção à comunidade, bem como melhor organizar a participação do Estado na promoção das festividades, visando conforto, segurança e tranquilidade para todos.

O Iphan tem participado das discussões e, no âmbito de sua competência institucional, contribuído no encaminhamento de medidas referentes à salvaguarda dos bens culturais tombados, preocupação que se refere tanto ao patrimônio edificado quanto à própria festividade, na perspectiva de manutenção do seu caráter lúdico, popular, espontâneo e democrático. O propósito é contribuir para que o espaço público seja um ambiente de sociabilidade, no qual as manifestações culturais se realizem com alegria, tranquilidade, segurança e em harmonia com o funcionamento da cidade.

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