Um Oscar pela diversidade e contra Donald Trump

Um Oscar pela diversidade e contra Donald Trump

A entrega dos prêmios teve protesto político, com críticas ao líder dos EUA, além da maior gafe da história da cerimônia. O grande vencedor, com seis estatuetas, La la land, foi anunciado por engano como o melhor filme

» Ricardo Daehn
postado em 27/02/2017 00:00
 (foto: Mark Ralston/AFP)
(foto: Mark Ralston/AFP)

O tom político disparou logo na abertura da cerimônia da 89; edição do Oscar, quando o anfitrião Jimmy Kimmel citou a tarefa complicada de congregar boa parte do mundo, que sempre acompanha a premiação. O comediante ressaltou que ;duzentos e tantos países, agora, nos odeiam; ; em alusão aos Estados Unidos. Com ironia, ele citou o filme Coração valente, de Mel Gibson, e arrematou: ;Ele, Mel, é incapaz de nos unir;. O alvo da noite, no entanto, era Donald Trump. Horas antes, o presidente dos EUA polemizou, por meio do Twitter. Para afugentar os holofotes de possíveis críticas no Oscar, ele convidou 50 governadores, republicanos e democratas, para um baile na Casa Branca, enquanto os olhos se voltavam para Hollywood.

No tapete vermelho, uma pequena fita azul sobressaía nas lapelas ou como adereço de vestidos. O protesto, em prol da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), teve adesão das celebridades que respaldaram a defesa e a preservação dos direitos individuais e das liberdades garantidas pela Constituição norte-americana. Se, numa brincadeira, os filmes Estrelas além do tempo e La la land ; Cantando estações foram ressaltados na declaração do apresentador de que ;os negros salvaram a Nasa e os brancos salvaram o jazz;, quem salvou o tom de relevância do Oscar foi a atriz Viola Davis (de Um limite entre nós), premiada como intérprete coadjuvante.

Num discurso emocionante, ela lembrou o ponto de encontro das pessoas de grande potencial: o túmulo. ;Histórias importantes se fundamentam na exumação dos corpos daquelas pessoas que sonharam sonhos grandes, os quais jamais conseguiram concretizar. Tenho a sorte de estar numa profissão que celebra o que significa viver uma vida. Dedico este prêmio a quem merece: August Wilson (autor da peça que deu origem ao filme, morto em 2005); ele exaltou e exumou as pessoas comuns;, disse, aos prantos, Viola.

Primeiro muçulmano a ganhar um Oscar, o melhor ator coadjuvante Mahershala Ali (de Moonlight: sob a luz do luar) se alinhou a outros vencedores negros valorizados pela categoria, entre os quais, Louis Gosset Jr., Denzel Washington e Morgan Freeman. No discurso, por demais esperado, pesaram dados protocolares, o que acabou decepcionando. Ali se resumiu a agradecer aos ;professores maravilhosos que ensinavam a não se ver como o centro de uma obra (de uma peça ou de um filme), mas, sim, a servir a um personagem;. Mais denso foi o ataque em tom simpático do ator mexicano Gael García Bernal, que embutiu assunto sério, bem na hora da vitória de Zootopia (filme que trata da harmonia presente entre os animais), como melhor animação. Gael demonstrou resistência e oposição ;contra qualquer tipo de parede que tente nos separar; ; alusão ao muro que Trump pretende erguer na fronteira com o México.

Ausência

Um dos pontos altos da festa coube a Ashgar Farhadi, de O apartamento, cinco anos depois da vitória por A separação. De acordo com o diretor iraniano, a sua ausência da cerimônia foi uma decisão com implicações políticas. Uma representante leu um forte discurso de Farhadi no palco. ;Minha ausência é pelo respeito ao povo de meu país e aos de suas nações desrespeitadas pela lei desumana. (;) Dividir o mundo em ;nós e nossos inimigos; cria medo, uma justificativa enganosa para a agressão e para a guerra. Cabe aos cineastas, mais do que nunca, apostar na capacidade de gerar empatia, por meio do cinema;, declarou.

Blindada pela Academia, Meryl Streep (presente na 20; indicação), a maior opositora de Trump, recebeu o prestígio de uma salva de palmas, de pé, dos colegas, depois de ter sido desmerecida pelo presidente. Também veterana, a atriz francesa Isabelle Huppert (candidata por Elle) esbarrou com duas brincadeiras do apresentador. Pela notória resistência dos americanos com filmes legendados, foi dito que ;nós (americanos) não assistimos a Elle, mas adoramos o filme; e, por causa das medidas restritivas de Trump, Kimmel se mostrou surpreso por terem permitido que a francesa entrasse na festa.

Na festa, o tema do racismo não demorou a despontar. Jimmy Kimmel brincou que ;queria agradecer ao presidente Trump, porque, no ano passado, os Oscars pareciam racistas; agora a história é outra;. Tido como melhor documentário, o longa O.J.: Made in America deu brecha para discurso em que foram citadas as ;vítimas da violência motivada pelo racismo;.

Apesar de toda a expectativa em torno do filme La la land, a produção não obteve estatuetas suficientes para se igualar a grandes vencedores da história do Oscar, como Titanic, Gigi, O último imperador, O paciente inglês e Amor, sublime amor. Ainda assim, o musical foi o grande vencedor da noite: o filme arrebatou seis prêmios ; direção de arte, fotografia, trilha sonora, canção original, melhor atriz e direção. Por este último, Damien Chazelle tornou-se o cineasta mais jovem a conquistar um Oscar. Casey Affleck ganhou o prêmio de melhor ator por Manchester à beira-mar, enquanto Emma Stone foi agraciada por seu papel de La la land. Na maior gafe da história do Oscar ; o musical foi anunciado por engano como o campeão ;, Moonlight levou a estatueta de melhor filme.

Provocações

A repercussão nas redes sociais foi bem enfatizada pelo Oscar, que acoplou a leitura de tuítes maldosos que mencionaram a festa. Entre as personalidades agredidas pelos internautas, estavam Eddie Redmayne, Jessica Chastain, Tilda Swinton e Robert De Niro, que leram mensagens que variaram entre divertidas e agressivas. Para quem apostou na língua afiada de Meryl Streep, uma das apresentadoras do evento, veio o revide: com classe, e exaltada pelo fã Javier Bardem, a atriz apareceu no palco para dar uma definição do cinema, criado para representar ;uma verdade maior sobre a vida e o amor;.

Na sequência, o diretor de fotografia recém-vencedor do Oscar Linus Sandgren, de La la land, entregou a declaração de amor para o diretor Damien Chazzele: ;O filme foi criado com tanto amor e paixão. Chazzele, eu te amo ; você é um gênio poético;. Na contramão de tanta sensibilidade, coube a provocação de Jimmy Kimmel, no palco. Ele se disse preocupado: ;São quase duas horas e não vimos nenhum tuíte!”. Em seguida, tuitou: ;Ei, Donald Trump, você está desperto?; Não houve resposta.

Mark Ralston/AFP
Ao contrário do esperado, Mahershala Ali não adotou tom ideológico

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