Pioneirismo grego no DF

Pioneirismo grego no DF

Comunidade celebra história dos imigrantes do país mediterrâneo em Brasília com lançamento de livro. Obra resgata relatos dos desbravadores que vieram para a nova capital antes mesmo de ela existir

Jéssica Eufrásio * * Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
postado em 01/04/2017 00:00
 (foto:  Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)


Brasília é conhecida por ser reflexo do sonho arquitetônico de Oscar Niemeyer, idealizada por Lucio Costa e colocada em prática pelas mãos de quase 3 mil operários, vindos dos quatro cantos do Brasil ; em especial, da região Nordeste. Poucos poderiam imaginar, porém, que uma capital que nem sequer tinha se consolidado entraria na mira dos estrangeiros ; muito menos, de gente vinda da Grécia.

Abalados pela 2; Guerra Mundial (1939-1945) e, quase em seguida, pela Guerra Civil Grega (1946-1949), os gregos iniciaram um forte movimento emigratório na década de 1950. O país viveu um período de instabilidade política entre 1924 e 1935, durante o qual a população enfrentou 14 mudanças de governo. Foi justamente no fim dos anos 1950 que Brasília começou a receber gente de todo o Brasil e do mundo. Produzido com o intuito de guardar os registros das histórias da população grega que deixou o país para trás, o livro Os Argonautas do Cerrado: Memória e Histórias da Comunidade Grega de Brasília conta um pouco da saga desse povo que, assim como de muitos brasileiros, veio para a Capital da Esperança com objetivos bem claros: recomeçar a vida e conseguir um trabalho.

A obra foi produzida pela própria Comunidade Grega de Brasília sem o apoio de editoras. O vice-presidente da comunidade, Elias Grintzos, explica que, entre as nações que receberam imigrantes, o Brasil foi a que melhor acolheu essa população, saída dos mais diversos pontos do país mediterrâneo. ;Nos Estados Unidos, havia um pouco de preconceito com imigrantes. No Canadá, era parecido. Já na Austrália, não aceitavam imigrantes sem profissão;, relembra Elias.

A hospitalidade brasileira e a promessa de uma vida promissora na cidade atraíram mais de 2 mil gregos. Eles vieram com as famílias e se instalaram na antiga Cidade Livre (atualmente Núcleo Bandeirante), na Vila Amaury e na Vila Planalto. Segundo Elias, os imigrantes começaram a trabalhar, principalmente, na construção da cidade e no comércio local, que tinha praticamente metade de sua composição dominada por negócios gregos.

Em 1965, depois de estabilizados na capital, Elias e três amigos ; Konstantino Detzortis, Nikolaos Hatzinicolau e Roberto Diacopoulos ; tentaram encontrar uma forma de preservar a cultura e a religião do grupo, além de permitir que os compatriotas pudessem ter um local fixo para se reunir. Em 1965, eles deram início à Comunidade Grega de Brasília.

O livro começou a ser produzido em 2015, por ocasião da comemoração dos 50 anos da comunidade. A obra ficou pronta, de fato, só este ano. O lançamento ocorreu em 26 de março para coincidir com a data de celebração dos 196 anos da independência da Grécia do domínio do Império Otomano.

Números imprecisos


Elias é da primeira geração de gregos que veio para Brasília. Hoje, essa comunidade se encontra na quarta descendência. Atualmente, a capital tem entre 1,5 mil e 2 mil pessoas de origem grega ; o que inclui desde os primeiros desbravadores, como Elias Grintzos, até os filhos, netos e bisnetos deles nascidos no Brasil.
O presidente da Comunidade Grega de Brasília, Dionyzio Klavdianos, explica que dados mais precisos são difíceis de mensurar, já que não há registros estatísticos de órgãos oficiais. ;Nunca houve nenhum tipo de censo. Nós queremos realizar uma espécie de cadastramento no DF. Isso até pode ser feito, mas deve levar de dois a três meses;, explica.

De acordo com informações da Embaixada da Grécia no Brasil, a comunidade grega no país conta com aproximadamente 30 mil pessoas ; a maioria no estado de São Paulo. O consulado naquele estado é responsável pelos registros numéricos de gregos que moram por lá, além de em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Porém, a representação diplomática também confirma que nenhum dos órgãos representativos da comunidade grega pode apresentar números oficiais.

Atividades

A sede da comunidade em Brasília tem uma igreja greco-ortodoxa, com celebrações de missas em grego e em português aos domingos. Também oferece cursos de grego, do básico ao avançado, gratuitamente. Para tornar a cultura helênica mais conhecida, a comunidade realiza, periodicamente, celebrações de aniversários da entidade e de datas comemorativas, com festas que são abertas ao público.

Segundo Dionyzio, a próxima a ser realizada é a Panaguiri, festa tradicional do país, realizada no fim do verão para celebrar o fim da colheita e homenagear o santo padroeiro dos respectivos vilarejos. A festa será em 25 e 26 de agosto, na sede da entidade, e será aberta a quem tiver interesse.

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