Mobilidade

Mobilidade

IVAN CAMARGO Ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)
postado em 01/04/2017 00:00

Escrevo de Paris, onde tenho a honra de dirigir, a convite da Capes, a Fundação Maison du Brésil. Sobre essa casa, fundada em 1959, e que abriga estudantes e pesquisadores brasileiros quando vêm fazer seus intercâmbios com as universidades francesas, falarei em outra oportunidade. Hoje, registro as primeiras impressões sobre voltar a viver em Paris. Digo voltar porque é a terceira vez que tenho a oportunidade de morar nessa linda cidade. A primeira, na infância, nos anos 1960. A segunda, para fazer o meu doutorado, nos anos 1980 e, agora, com a missão de dirigir a Maison.


A maior diferença que se percebe nas ruas parisienses, em relação aos anos 1980, é a redução do número de carros nas ruas. Muitos devem ser os motivos dessa redução, mas eu destaco aqueles que, a meu ver, estariam mais relacionados com a mobilidade em Brasília: a importância do transporte coletivo, a prioridade aos pedestres e aos ciclistas e o respeito ao espaço público.


O transporte público de Paris é conhecido como um dos melhores do mundo. Em toda estação de ônibus ou de metrô, tem-se, por exemplo, o tempo de espera para o próximo veículo. Uma demonstração simples de respeito ao usuário. Um único cartão, com pagamento mensal, dá acesso a todo o sistema além de permitir a utilização das bicicletas públicas.


A prioridade ao transporte público é demonstrada também em ações. Nos anos 1980, havia um grande boulevard que dava a volta na cidade e que vivia engarrafado. A solução encontrada foi a de reduzir o espaço do carro para colocar um confortável VLT (veículo leve sobre trilhos) que desliza silenciosamente sobre trilhos instalados em um grande gramado. O tráfego dos veículos individuais ficou ainda mais lento. É melhor e mais rápido usar o sistema de transporte coletivo.


Os corredores exclusivos para os ônibus cruzam a cidade inteira. Mais uma vez, reduzindo o espaço dos carros e dificultando o transporte individual motorizado. Nesses corredores, é permitido o deslocamento das bicicletas. O ciclista cruza a cidade com toda a segurança, usando, se quiser, essas vias. Digo se quiser porque a cidade também tem uma enorme rede de ciclovias que mais parecem autoestradas para bicicletas. Um luxo.


Toda esquina tem um sinal para pedestres. A circulação do automóvel fica mais difícil. É claro que a prioridade da cidade não é o carro individual, mas o cidadão. As ações que priorizam o pedestre são muitas e têm uma característica em comum: o respeito ao espaço público. Os espaços são usados para privilegiar o maior número de pessoas, não o dono do automóvel. Andar de carro em Paris é lento e caro.
Não há vagas de estacionamento gratuito na cidade. Considero que seja mais uma ação de respeito ao espaço público. Já está passando da hora dos estacionamentos públicos de Brasília passarem a ser pagos. Li com alegria, nas páginas do Correio que o secretário de Habitação está empenhado nesse projeto. É claro que a medida vai desagradar a muita gente, mas, conceitualmente, ela é inadiável. Acho inclusive que as vagas dentro das quadras devam ser pagas. Eventualmente sendo fornecido (ou vendido) aos moradores um cartão de liberação.


Não serão medidas fáceis. Como o espaço de uma cidade é finito, facilitar a circulação significa restringir o espaço para os automóveis. É preciso sinalizar para onde vai a receita. O mais óbvio seria que todo o recurso arrecadado fosse revertido para projetos de mobilidade. Não aumentar o preço das passagens de ônibus seria um grande avanço. Várias cidades na Europa seguem esse caminho. Melhoram a mobilidade dificultando a circulação do transporte individual. Os resultados são muito bons.


Todo projeto de mobilidade é caro e necessita de um longo e rigoroso planejamento. Temos urgência em definir em que tipo de cidade queremos morar no futuro. Temos que agir. Não podemos continuar privilegiando o transporte individual motorizado. Se continuarmos nessa linha, vamos repetir o que tem acontecido nas grandes cidades brasileiras. Paris é um exemplo melhor a ser seguido pois, como Brasília, é um patrimônio da humanidade.

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