Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 01/04/2017 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 25/2/16)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 25/2/16)


O jogo virou ao
sul do Equador




A nova crise institucional irrompida na Venezuela se desenrola contra um pano de fundo substancialmente distinto daquele que emoldurou os seguidos impasses vividos desde a ascensão de Hugo Chávez, em 1999. Desde então, Brasil, Argentina e Uruguai (para ficar apenas nos países que integram o Mercosul) empenharam repetidamente os esforços diplomáticos para impedir uma saída extraconstitucional para os impasses entre o governo chavista e a oposição. Foi assim, notadamente, em abril de 2002, quando facções políticas e empresariais se associaram a militares descontentes na tentativa de depor Hugo Chávez. Nos anos seguintes, novamente, o concurso da diplomacia brasileira e argentina foi decisivo para afiançar o diálogo entre governo e oposição e garantir o referendo que, por fim, ratificou a permanência de Chávez no poder.

O que mudou de substancial, desde então, foi a composição de forças políticas na América do Sul. O impeachment de Dilma Rousseff foi, de longe, o fator mais determinante para o deslocamento do ponto de equilíbrio do sistema, da esquerda para a direita. Conjugada à saída de Cristina Kirchner, na Argentina, e à vitória do empresário Mauricio Macri na disputa pela sucessão, a troca de governo nos dois pilares do Mercosul e da Unasul significou na prática o isolamento regional do governo chavista.

Mais do que nunca, as atenções da vizinhança estarão voltadas, amanhã, para a eleição presidencial no Equador, onde está em jogo a sobrevida de mais um governo de esquerda.

Tocou o gongo
É especialmente significativa a mudança de tom do Brasil, um processo que vinha sendo observado já desde os últimos meses de governo de Dilma Rousseff. A cautela habitual para emitir pronunciamentos oficiais, ilustrada pela demora e pela escolha cuidadosa dos termos, de lugar a um padrão de resposta imediata ; mais notadamente desde a ascensão de Michel Temer. Com José Serra no comando do Itamaraty e agora com Aloysio Nunes Ferreira, ambos senadores tucanos com um histórico de militância em favor da pressão sobre o governo chavista, a mudança de lado ficou clara.

O novo chanceler construiu ao longo dos últimos anos uma relação próxima com a oposição venezuelana, na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Encabeçou a delegação enviada a Caracas, no ano passado, na tentativa (frustrada) de visitar líderes oposicionistas presos. Nas primeiras semanas à frente do Itamaraty, Aloyisio recebeu adversários do governo de Nicolás Maduro para discutir a situação no país vizinho.

A nota que ilustra o novo cenário regional é a análise dos termos da nota emitida na quinta-feira ; e a prontidão com que o governo brasileiro se pronunciou é igualmente significativa ; sobre a decisão do Judiciário venezuelano de assumir para si as funções legislativas. O texto menciona a necessidade do diálogo entre chavistas e a oposição, mas delega a Maduro a responsabilidade por garantir condições para ele. Diferentemente de outras situações, nas quais Brasília preferiu sinalizar equidistância, desta vez a escolha das palavras deixa pouca margem para dúvidas: ao manifestar claramente ;repúdio; pela decisão do Judiciário, a diplomacia brasileira soa o gongo para Caracas.

Norte a sul
A nota conjunta emitida ontem pelos governos de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Colômbia dá a dimensão da mudança de rumos e humores na vizinhança imediata. O tom das colocações no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde há não muito tempo a esquerda latino-americana obrigou Washington a engolir a readmissão de Cuba, é outro sinal evidente de que o mapa político da região mudou, de norte a sul.

Daí a importância capital que assume, para os governos do eixo bolivariano, a eleição presidencial de amanhã, no Equador. A vitória do socialista Lenín Moreno significará que os aliados de Chávez, Lula, Kirchner e Mujica conseguiram manter uma das últimas posições conquistadas nas últimas décadas. Do conrtário, restará na América do Sul apenas o presidente Evo Morales, da Bolívia, como anteparo entre Maduro e um ;cordão sanitário; que rejeita seu governo.

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