Ciclistas expostos à INTOLERÂNCIA

Ciclistas expostos à INTOLERÂNCIA

Acidentes recentes reforçam as dificuldades e os perigos enfrentados por quem circula de bicicleta no Distrito Federal. Do ano passado até março de 2017, houve 21 mortes sobre duas rodas nas vias que cortam a cidade

Adriana Bernardes
postado em 01/04/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Em menos de 15 dias, dois ciclistas saíram das ruas do Distrito Federal direto para a unidade de terapia intensiva (UTI). Atropelado no Noroeste em 25 de março, José Mário Quintão, 56 anos, luta pela vida em um leito de hospital. Fernando Gastal Ripoll, 34, deixou o setor especializado na tarde de ontem, 20 dias após ter a bicicleta atingida por uma Mercedes no Lago Sul. Esses dois casos revelam a vulnerabilidade de quem circula pela cidade sobre duas rodas. Imperícia de motoristas e ciclistas, intolerância, alcoolemia e distrações estão entre as causas das tragédias. Neste ano, dois ciclistas morreram em acidentes de trânsito. No ano passado, 19 tiveram a vida interrompida.

As circunstâncias do acidente em que se envolveu o engenheiro agrônomo Fernando Ripoll ainda são incertas. Ele saiu do coma há uma semana, mas não consegue se comunicar com os familiares. Quando ele bateu com a cabeça, vários coágulos de sangue se formaram no cérebro. Por causa disso, perdeu o controle dos movimentos, as expressões e a independência. A tia de Fernando, a administradora Bianca Dias, 50, conta que o sobrinho se alimenta por sonda. ;Durante o tempo internado, teve pneumonia e pegou uma bactéria superresistente, que está controlada. Assim que os médicos liberarem, ele irá para casa, ficar em home care para evitar novas infecções;, conta.

Fernando pedalava com uma colega no Lago Sul, no fim da tarde de 11 de março, quando foi atingido por uma Mercedes. O motorista não prestou socorro. Apresentou-se à delegacia no dia 13. Em depoimento, o jovem, de 19 anos, teria dito que nem ele nem o amigo, que era passageiro no carro, perceberam a colisão com a bicicleta. E que só se deu conta da possibilidade de ter atingido alguém no dia seguinte, quando viu a notícia do atropelamento. ;As penas para os crimes de trânsito são muito brandas e favorecem o infrator. Se a pessoa foge, é porque provavelmente não estava com as condições legais para conduzir o veículo. É impossível não ver uma pessoa de 1,80m voando por cima do seu carro;, lamenta Bianca.

A Divisão de Comunicação da Polícia Civil informou que o caso é apurado como omissão de socorro. Investigadores aguardam a chegada de laudos para concluir a apuração.

Anjos da guarda

O educador físico André Galvão Pontes, 39, sobreviveu a um acidente no Noroeste, o mesmo que deixou José Mário Quintão em estado grave. ;Com mais gravidade, tive uma perfuração no pulmão esquerdo, um pneumotórax no mesmo local e uma fratura na vértebra T8. Não ter acontecido nada pior foi um trabalho árduo dos meus anjos da guarda;, afirma André (leia Depoimento).

Ele começou a pedalar ainda criança. Há quatro anos, pratica o ciclismo de performance. Para essa parcela de atletas, as dificuldades e os riscos aumentam. Eles pedalam em velocidade superior aos demais usuários. E, no DF, não há espaço adequado para a prática. Com isso, treinam nas ruas e encontram pela frente motoristas com dificuldade em aceitar a presença deles na via.


Depoimento
Perda da consciência

;Achava que me lembrava dos fatos. Depois de ter conversado com outros ciclistas, percebi que o relato deles foi um tanto diferente do meu. Saímos em grupo do Sudoeste e contornamos o Plano Piloto pela L4, passando pela via do Palácio do Alvorada. Como professor, conduzi um grupo menor para o Noroeste, enquanto outros dois grupos seguiram outras rotas. Usamos a via do Noroeste pela possibilidade de treinar subidas com um fluxo menor de veículos. Como há diferenças de condicionamento físico entre ciclistas, combinamos um ponto de retorno para reunirmos novamente o grupo e darmos sequência ao treino. O Zé Mário (José Mário Quintão) estava mais forte e subiu na frente com outros ciclistas, enquanto eu fiquei atrás com mais dois ciclistas. O Zé Mário fez o retorno próximo ao aeroclube e desceu para nos encontrar. Ao cruzar a pista, a Range Rover o atingiu com força e, na tentativa de desviar dele, acabou me atingindo do outro lado, na direção contrária. Fiquei muito atordoado e com muitas dores, sem conseguir me levantar. Aos poucos, fui recobrando a consciência até que fui levado por um amigo para o hospital. Com mais gravidade, tive uma perfuração no pulmão esquerdo, um pneumotórax no mesmo local e uma fratura na vértebra T8.;

André Galvão Pontes, educador físico



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