Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

O homem das plantas

por Gustavo T. Falleiros >> Gustavo.Falleiros.df@dabr.com.br
postado em 01/04/2017 00:00
;O homem das plantas.; Às vezes, ;a mulher das plantas;. Toda superquadra tem, já reparou? A gente logo imagina uma pessoa de certa idade, aposentada, com disponibilidade de tempo, mas talvez não haja estereótipo. O pré-requisito é o dedo verde. E aquela fidelidade que só os jardineiros têm.

Cultivo algumas teorias a respeito. Imagino os homens e as mulheres das plantas como uma contrapartida dos síndicos, que são figuras públicas e resolvedoras de problemas, verdadeiros porta-vozes do concreto. Para equilibrar as coisas, alguém precisa ser amigo do gramado, da terra molhada e dos caramujos. É como se cada quadra tivesse seu próprio Manoel de Barros para honrar as miudezas e aguar o verde.

Fato é que os semeadores são discretos e se regozijam no silêncio do desabrochar ; fruta madura colhida no pé. Jamais gritam seus feitos aos quatro ventos, pois as realizações falam por si. Investem no longo prazo e, nisso, também se diferenciam dos síndicos, que prestam conta mês a mês e lidam com urgências ;pra ontem;.

Conheci o homem das plantas da 313 Norte. Chamava-se Olavo. Era calado e gentil. Plantou mangueiras, abacateiros e jaqueiras. As frutíferas sempre angariam simpatia, mas ele próprio não fazia distinção. Sei de, pelo menos, um flamboyant vermelho crescido sob seus cuidados e testemunhei a lenta escalada da fileira de palmeiras que contorna o Bloco A e aponta para o céu.

Quando bate um vento, as folhas entortam e entram nos apartamentos do sexto andar. Uma dona de casa achou a visita intrusiva e, sem alarde, fez uma poda. Pensa que a intervenção passou despercebida? Seu Olavo ralhou. Insistiu que era só afastar a folha de palmeira para o lado, com jeitinho, como quem pede licença. Há pessoas que conversam com as plantas. Não sei se era o caso.

Imaginar esse diálogo fez meu dia melhor. Porém, em vez de externalizar meus pensamentos, vou de Gilberto Gil: ;Abacateiro, acataremos teu ato / Nós também somos do mato, como o pato e o leão / Aguardaremos, brincaremos no regato / Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração / Abacateiro, teu recolhimento é justamente / O significado da palavra temporão / Enquanto o tempo não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação