A melancolia está em voga

A melancolia está em voga

Uma série de filmes da safra de 2016/17 discute as experiências da felicidade e da infelicidade em um mundo convulsionado por múltiplas turbulências

Elizeu Chaves Jr Especial para o Correio
postado em 01/04/2017 00:00
 (foto: Diamond Films/Divulgação)
(foto: Diamond Films/Divulgação)







Em tempos marcados pelo escrutínio hiperbólico das mídias sociais, um fenômeno que ainda persiste é a curiosidade gerada sobre os filmes nomeados (e mesmo os esquecidos) após a temporada de premiações de Hollywood. Em 2016, várias obras premiadas tiveram como espinha dorsal abordar, por ângulos distintos, a busca de redenção, ainda que com certo niilismo. Seja no retrato cru sem chances de remissão de Manchester à beira mar ou nos silêncios repletos de significado de Moonlight, os infortúnios não corrigidos pelo tempo são um tema central.

Moonlight é um manifesto atual sobre tolerância e discute com muito esmero e sensibilidade, sem soluções fáceis, o vínculo necessário e não causal entre identidade e felicidade. Já Manchester pode ser considerado um exame contemporâneo da melancolia. Árduo e bem executado em sua proposta, transmite a todo momento a consternação dos personagens frente ao padecimento imposto por eventos sem remissão factível.

Um filme bem menos comentado que vale ser lembrado é Animais noturnos que deverá ser redescoberto e alcançar uma aura cult. A produção certamente não agrada a todos e tampouco carrega um apelo universal. Dirigido pelo midas da indústria da moda Tom Ford, responsável pela recuperação de marcas como Gucci e Yves Saint Laurent, traz alguns paralelos com Manchester e Moonlight por tratar ;coincidentemente; o tema da redenção inviável e por contar uma história feita por meio de saltos temporais, muitas vezes de maneira não linear.

Trata-se de um drama travestido de thriller, que poderia ser definido como o contrário, chegando a flertar com o terror em alguns momentos. Três narrativas se sobrepõem. Susan, (brilhantemente) interpretada por Amy Adams, é uma profissional bem-sucedida do mundo das artes que, em crise no casamento, recebe o manuscrito de um livro de autoria de seu ex-marido, cujo título é Animais noturnos. A partir daí, a história se desenrolará entre acontecimentos do presente de Susan, seu passado e o roteiro do livro.

Transe
Adaptado do romance Tony e Susan de Austin Wright, o filme contém cenas e soluções que podem chocar, deixando o público em transe até a conclusão, que instigará muita discussão. Tom Ford passa a integrar um seleto clube de profissionais que navega entre áreas distintas estabelecendo uma marca. Em Animais noturnos, sua segunda incursão no cinema (a primeira foi em Direito de amar, de 2009), ele se vale do apuro estético, e até mesmo de excessos do universo fashionista, como recurso narrativo e não muleta. Em um verdadeiro jogo semiótico, o detalhismo do autor está empregado na construção de inúmeras cenas, que podem passar desapercebidas à primeira vista.

Em um tempo de muitas certezas (ou seriam pós-verdades?) é interessante ver como obras como Manchester, Moonlight e Animais noturnos conseguem contribuir para a discussão sobre (in)felicidade. O último provoca discussão sobre premissas que pareciam superadas, mas seguem atuais ; como a de que os dramas pessoais minguam proporcionalmente à ascensão social. Aliás, ao tratar o a temática, sob a perspectiva de quem conhece o universo do alto consumo, a produção escapa da idolatria fácil, pois, reconhece os prazeres proporcionados pelos recursos materiais, mas relativiza seu impacto na busca de paz interior com o mérito de não soar panfletário ou piegas.

Diálogo áspero
Os três filmes tratam o tema da transgeracionalidade, questão já abordada sob variados ângulos em obras diversas da literatura como Ulisses, de James Joyce, ou O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e em filmes como o Poderoso chefão, de Francis Ford Coppola, Fanny e Alexandre de Ingmar Bergman ou, em uma linguagem pop, Star wars, de George Lucas. Em uma cena magistral de Animais noturnos, um diálogo áspero entre mãe e filha, ambientado de maneira suntuosa, ainda que em um contexto incômodo, várias nuances das relações familiares emergem: projeção, contestação e inevitabilidade de legados.

É provável que a safra de filmes retratando uma desconfortável paralisia dos personagens frente aos dissabores da vida seja um retrato de uma época em que desilusão e desencanto atrelados a uma resignação incomum são fenômenos coletivos muito presentes. Uma verdade é certa: agradando ou não, mais que qualquer outro filme da temporada, incluindo os vencedores na polêmica premiação do Oscar de 2016, Animais noturnos é de tirar o sono.

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