Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 08/04/2017 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Europa resiste ao
porrete de Trump




E m visita ao Brasil para uma série de palestras e contatos com o meio acadêmico e diplomático e com os círculos onde se discutem os temas de defesa estratégica, o estudioso francês Olivier de France, diretor de pesquisas do prestigiado Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, de Paris, falou à Conexão sobre o desafio representado, para a União Europeia e para o resto do mundo, pela política externa unilateralista dos Estados Unidos sob Donald Trump.

O ataque ordenado por Donald Trump na Síria sinaliza uma opção de Washington
pelo unilateralismo na política externa, uma tendência similar à expressa pelo Brexit?

O que acontece nos Estados Unidos e em outros países, inlcusive o Brasil, é o que vemos na esfera internacional, regional e dos países, individualmente. Em todos os escalões da sociedade, as pessoas estão menos inclinadas a agir conjuntamente, porque isso exige compromissos. Nesse período da história que se seguiu ao fim da Guerra Fria, as pessoas pensavam que era o ;fim da história;. Na Europa, pensávamos que a União Europeia podia ser um farol do multilateralismo, um exemplo de integração regional, e que essa tendência seria irreversível. A decisão do Reino Unido de sair da UE mostra que esse processo é reversível. Minha impressão é de que não apenas nas relações entre países, mas também entre comunidades dentro de um mesmo país, as posições são mais unilaterais. Você vê isso entre republicanos e democratas, nos EUA, ou entre europeísta e eurocéticos, no Reino Unido. Vivemos em sociedades-arquipélagos: as pessoas se sentem mais próximas entre cidades cosmopolitas, como Nova York e Paris, do que entre Nova York e New Hampshire, ou Paris e Nice.

Essa nova realidade pode ter um impacto
na discussão estratégica sobre defesa no âmbito da UE?

A área da defesa é uma das mais difíceis, na Europa, para que se articulem ações conjuntas. Porque se trata, na Europa, de democracias de vida longa. No caso da defesa, não importa o que as pessoas possam dizer, ela ainda é encarada como prerrogativa nacional de cada país-membro, da UE. Engajar-se em um conflito, colocar soldados na linha de frente, que é uma decisão sobre vida e morte, é uma decisão tomada na capital de cada um dos países-membros, não em Bruxelas, não na sede da UE ou no quartel-general da Otan. E o resultado é uma dose de inércia, porque os governos estão habituados há muitas décadas a tomar decisões segundo parâmetros nacionais. Isso torna difícil a cooperação e a integração europeia nessa área. Mas não existe alternativa à abordagem multilateral: é a única maneira.

Isso se aplica ao âmbito da Otan, com os EUA atuando de maneira mais agressiva para pressionar
os parceiros a aumentar seus gastos militares?

A maneira como esse debate está sendo colocado por Trump é a exigência de que os países da aliança comprometam 2% do orçamento anual com gastos de defesa. Vamos imaginar que ele se encontra com (a chefe de governo da Alemanha) Angela Merkel e apresenta a conta para ela: ;Você tem que gastar 2% do PIB (com defesa) e não está gastando. Então, esse valor é o que você está devendo para os EUA pela sua segurança;. Isso me parece muito estúpido. Trump não entende a UE e não tem interesse nela. A Alemanha tem um PIB enorme. Se for passar aos 2%, isso equivale a passar de 35 bilhões de euros anuais para 78 bilhões. E o resto da Europa não se sentiria confortável com a Alemanha gastando esse montante com defesa, por razões históricas.

E como poderia ser tratada essa questão?
Muita gente, na Europa, tem a impressão de que essa discussão sobre a destinação de 2% do PIB é a maneira americana de ver a questão, de que se resolvem os conflitos pela força militar. E existe uma suspeita de que aumentar os gastos de defesa é igual a comprar mais material militar dos EUA e financiar a indústria bélica americana. O que se pode é enquadrar esse debate em uma abordagem à moda europeia. A UE é a principal potência comercial do mundo e tem o poder de colocar essa questão pela sua perspectiva. Pode-se, por exemplo, incluir nesses 2%, e passar para 3% ou 4%, também gastos com segurança em sentido mais amplo e com ajuda internacional para o desenvolvimento. Isso soa compatível com a visão europeia do mundo, de que a força militar não é o único meio de resolver conflitos. Existem maneiras de preveni-los, construir sociedades ; uma coisa que os EUA nem sempre compreendem. Porque estão habituados a usar o ;grande porrete;, mas na última década o porrete não produziu grandes resultados.

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