Passeio no tempo

Passeio no tempo

Paulo Pestana Especial para o Correio
postado em 08/04/2017 00:00

Música é, essencialmente, um condutor de emoções. O desafio da música instrumental ; seja uma sinfonia ou um tema curto ;, é conduzir a intenção do compositor pelos canais sensoriais do ouvinte. Não se pode garantir que a emoção seja a mesma, mas a sensação é sempre coletiva.

Com 13 composições ; algumas da produção mais recente, outras bem mais antigas, recuperadas ; Guinga está lançando o disco Canção da impermanência.

É, obviamente e a partir do neologismo, uma celebração da vida, mas não como antítese da morte; ao contrário, é uma homenagem à permanência de personagens que já se foram e deixaram nele suas marcas. Contando apenas com o violão, o que, no caso de Guinga, é mais do que suficiente para traduzir sensações e emoções, ele passeia pelo tempo. Eventualmente usa a voz, quase sempre com onomatopeias, quase scats, e só mostra palavras na faixa que dá nome ao disco.

A viagem emocional começa com Meu Pai, construída a partir dos bordões do violão, mas que evolui por todo o desconcertante e inventivo repertório de criação do compositor, em uma estrutura de apenas 2min40. A partir daí, as homenagens alcançam Villa-Lobos (O trenzinho do Corcovado), Caymmi (São Dorival), Ernesto Nazareth (Domingo de Nazareth), Tom e Vinicius e Charles Chaplin (Chapliniana), entre as mais evidentes.

Como no disco anterior ; Roendopinho, de 2014 ; a engenharia de som registrou o violão de forma crua, com microfone aberto, o que ressalta tanto o som das cordas extraídas do bojo do instrumento, quando o tracejado obtido a partir da fricção dos dedos no braço do violão, o que poderia ser um incômodo cria quase um segundo instrumento, enriquece canções que estão sendo apresentadas da maneira que foram compostas.

É um disco para ser ouvido de olhos fechados; concentração total na música, nas intenções e no modo de interpretação. Guinga é um virtuoso do violão; apresenta acordes inusitados, extrai elementos que conduzem o ouvinte a um estado que só é possível alcançar com o idioma da música.

Há uma força inexplicável nas canções de Guinga, uma mistura de técnica cerebral e condução intuitiva e que pode ser analisada das duas formas ; a construção formal ou o sentido empírico. Mas é melhor se entregar ao prazer de estar junto a ele, na sala, ouvindo pequenas doses de beleza ; é esta a sensação que o disco entrega.

Guinga fecha o disco com Chapliniana, diálogo de sílabas aparentemente sem sentido, com uma melodia sentimental, que serve para traduzir o ofício desafiador. Entre malabarismos, estrepolias, choros e risos, a arte não precisa ser traduzida. Exatamente como Chaplin fazia em seus filmes sem palavras.

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