"Tem gente que é acusada sem base, a Justiça vai dizer"

"Tem gente que é acusada sem base, a Justiça vai dizer"

Para o ex-presidente do país, é prematuro julgar os políticos pelas delações da Odebrecht, que precisam ser analisadas e provadas pela Justiça

Denise Rothenburg ENVIADA ESPECIAL
postado em 19/04/2017 00:00
 (foto: Leonardo Cavalcanti/CB/D.A Press - 7/10/16)
(foto: Leonardo Cavalcanti/CB/D.A Press - 7/10/16)



Lisboa (Portugal) ; Na opinião do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), o Brasil passa por um momento em que a sociedade deixou de acreditar nos partidos. ;Este é o problema que nós temos. A crise que estamos vivendo não é propriamente uma crise, é uma mutação da civilização e que tem consequências políticas;, afirmou, durante conferência no V Seminário Luso-Brasileiro de Direito, na capital portuguesa. Em entrevista exclusiva para o Correio, Cardoso comentou que as siglas perderam a capacidade de agregar valores e isso as afasta das pessoas. ;Se não tiverem (valores), vão até continuar, mas não vão ser apoiados com força pela sociedade. A sociedade quer causas;, comenta.

Além da crise política, o tucano comentou a citação do seu nome e dos principais correligionários nas delações de ex-executivos da Odebrecht. Para Cardoso, todos os partidos no Brasil podem ter recebido recursos não contabilizados. ;Tem que começar a ver qual a responsabilidade efetiva. Esse dinheiro veio de onde? Do setor público, como no petrolão? Ou foi da própria empresa que tinha caixa dois e descarregou?; Entretanto, faz questão de ressaltar que não é favorável a anistia ao caixa dois. ;O caixa dois está capitulado de maneira diferente da corrupção, o que é verdade, é só ler o Código Penal e o Código Eleitoral, você vai ver que são coisas diferentes. O que eu disse e repito, é que a Justiça tem que separar o joio do trigo. Tem gente que é acusada sem base, e isso a Justiça, vai dizer;, acrescenta.

O senhor falou que vivemos uma mutação da civilização, não uma crise política, algo que vai além dos partidos políticos. Como substituir os partidos?
Não sei se pode substituir os partidos, nem se deve. Mas há um problema cultural também. Não só mudam as relações de produção, o tipo de trabalho, a fragmentação da sociedade, mas a visão que se tem das coisas. É a isso que estou me referindo. Os partidos têm de entender que eles representavam antes interesses muito organizados, ou queriam representar, de corporações, de setores da sociedade de classe. Hoje, as pessoas têm muita mobilidade, e se você não tiver valores, não tem como agregar, e os partidos perderam essa capacidade de propor valores, no que que eles acreditam.

Mas os partidos têm valores hoje em dia?
Esse é o ponto. Eles precisam ter. Se não tiverem, vão até continuar, mas não vão ser apoiados com força pela sociedade. A sociedade quer causas. (Quer saber) Você acredita no quê?

Pelo que a gente percebe, na visão da sociedade, os partidos são meras instituições de negócios...
De interesses. Visão que corresponde a uma parte da prática dos partidos, não foi simplesmente tirada do nada. Eles (os partidos) foram se transformando em algo que perdeu a capacidade de tocar nas crenças das pessoas. E tem que voltar a tocar nas crenças e precisa ver que crenças são essas. As pessoas até acreditam nas coisas, em algumas religiões. Não vou discutir em que religião. Acreditam que o Estado têm de ter educação, serviços. E acreditam, muitas vezes, em coisas contraditórias, a sociedade não é homogênea. Portanto, tem que ter partido, tem que ter diversidade, mas não pode ser uma fragmentação em função apenas de agregados de pessoas que têm objetivos pessoais. Aí, as pessoas pensam, por que vou me juntar a isso? Alguns continuam tendo alguma mensagem, mesmo que não se queira discutir. Como é que funcionou o sistema político brasileiro nas últimas duas décadas? Dois partidos simbolizavam visões, o PT e o PSDB. Nunca foram majoritários. Nem um, nem outro, nem na Câmara, nem na sociedade.

Sempre precisavam do PMDB?
Que é o partido que sabe funcionar a máquina. Um partido do Estado, digamos assim. Algo que sempre tivemos, no passado também. O PMDB sempre teve essa função. Claro que havia outros, alguns com enraizamento, alguns ideológicos, outros, não. Hoje, os três partidos, a sociedade não sabe muito bem se eles ainda significam e o que significaram. Ou eles voltam a significar alguma coisa ou viram um partido como outro qualquer.

Hoje não estão todos iguais?
A sociedade olhando, acha que são todos iguais, mas não são. Veja no caso em pauta, você tem acusações disso, daquilo para uma ou outra pessoa. O PSDB tem o governo de São Paulo há mais de 20 anos. Não existe um esfacelamento do governo, do partido. Em alguns estados, há partidos que conseguiram, não se desfiguraram completamente. Em outros, acabaram com o estado e não só com a estrutura partidária.

Caso do Rio de Janeiro?
Esse é o mais dramático, mas não é o único. Tem vários que estão em situação muito precária. Mas, então, os partidos não são todos iguais. A sociedade pode até pensar isso, mas não são. Agora, seja qual for o caminho, ele vai ter que se revitalizar se quiser existir por mais tempo e se revitalizar, como disse aqui, entendendo que temos uma mutação de valores.

Há quem diga que o Lula teria condições de retomar a presidência em 2018. Pelo menos, essa é a aposta do PT. Como o senhor vê a situação?
A situação do Lula é delicada porque ele é réu. Foi acusado formalmente em vários processos. Vai ser julgado. Não vou opinar porque não sou juiz, o juiz que vai julgar. Agora, a possibilidade da volta, acho remota, porque quando o Lula conseguiu ter uma expressão nacional foi porque ele saiu do gueto, ganhou a classe média e o apoio das pessoas que têm dinheiro. Hoje, ele perdeu esses apoios. Pode recuperar? Em política, tudo é possível, mas eu acho pouco provável.

E em relação ao PSDB? O senador Aécio Neves, o senador José Serra e o governador Geraldo Alckmin respondem a inquéritos. Como o senhor vê esses inquéritos que citaram, inclusive, a sua campanha lá de trás?
Eu já respondi e eles me isentaram de tudo, eu também não sei se houve ou não. Agora, veja: todos os partidos no Brasil, quase que sem exceção, não conheço nenhuma exceção, podem ter recebido recursos não contabilizados. Se essa for a regra, inviabiliza todos. Não acho que essa regra seja a principal. Tem que começar a ver qual a responsabilidade efetiva. Esse dinheiro veio de onde? Do setor público, como no petrolão? Ou foi da própria empresa que tinha caixa dois e descarregou? Então, tem que separar? E quem separa isso? É a Justiça. Então, acho que é prematuro.

O senhor acha que tem que haver anistia ao caixa dois, co

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