Macron larga na frente

Macron larga na frente

Emmanuel Macron e Marine Le Pen saem em busca dos votos necessários para vencer o segundo turno da disputa presidencial. O candidato centrista larga com o apoio dos principais líderes políticos, inclusive do presidente François Hollande

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 25/04/2017 00:00
 (foto: Lionel Bonaventure/AFP )
(foto: Lionel Bonaventure/AFP )





Sem a presença dos dois partidos tradicionais franceses no segundo turno da eleição presidencial na França, o centrista Emmanuel Macron e a ultradireitista Marine Le Pen iniciaram ontem a queda de braço pelo comando do Palácio do Eliseu. Temerosos com o que uma vitória de Le Pen pode significar para a estabilidade econômica e social do país, expoentes de variadas correntes políticas se reúnem em torno de Macron. Os observadores consideram o cenário desfavorável para a candidata da Frente Nacional (FN). Apesar do favoritismo do centrista, que foi ministro da Economia na presidência de François Hollande, a batalha eleitoral se estenderá até as eleições legislativas de junho.

Macron obteve no domingo 24,01% dos votos, contra 21,3% dados para Le Pen. Mesmo com a pulverização observada no primeiro turno, as sondagens indicam que o líder do movimento Em Marcha! vencerá o segundo turno com cerca de 60% dos votos. Macron tem apoio dos socialistas, dos republicanos e dos mercados europeus, que fecharam em alta.

O presidente François Hollande abandonou a neutralidade política para manifestar apoio ao ex-ministro e fez um apelo para que os franceses não entreguem o país nas mãos da extrema-direita. ;O que está em jogo é a composição da França, sua unidade, sua adesão à União Europeia (UE) e seu lugar no mundo;, alertou. ;A presença da extrema-direita faz nosso país correr um risco, novamente. Diante desse risco, se impõem a mobilização e as decisões claras. Da minha parte, votarei em Emmanuel Macron;, anunciou, em discurso transmitido pela tevê.

Sem surpresas
A despeito do favoritismo inicial do centrista, a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e a do ;sim; à saída do Reino Unido da UE levam alguns analistas a avaliar com cautela a capacidade eleitoral de Marine Le Pen. Estevão Martins, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), considera, porém, que a margem para surpresas é quase inexistente. ;O contexto político da França ; mesmo com os partidos tradicionais tendo um desempenho inferior ao de anos anteriores e de a extrema-esquerda ter ficado abaixo de 20% ; não representa nem uma frustração, como no plebiscito britânico, nem o conservadorismo extremo que leva ao poder um outsider como Trump;, afirma.

O estudioso acredita que o voto anti-Le Pen deve garantir a vitória de Macron. ;É uma situação análoga à de 2002, quando o pai da Marine foi ao segundo turno contra Jacques Chirac;, compara, lembrando a derrota sofrida por Jean-Marie Le Pen.

Ataques
Sem um cabo eleitoral de peso e sem garantias de que conquistará votos do eleitorado conservador, a líder da FN inciou a segunda etapa da campanha com ataques diretos. Referiu-se a Macron ; que a enfrentará em um debate televisivo em 3 de maio ; como alguém ;fraco; para comandar o país diante da ameaça terrorista e criticou a ;frente republicana apodrecida; em torno do adversário.

Mesmo que não o levem à vitória, os ataaques da ultradireitista pode dificultar a construção de apoio parlamentar a Macron. Um mês depois de escolher o presidente, os franceses voltarão às urnas para renovar a Assembleia Nacional. ;Acho que o segundo turno está decidido, e as legislativas serão o terceiro turno da presidencial. Aí, será extremo contra extremo;, opina Martins. ;A extrema-direita e a extrema-esquerda somam 40%. São como tubarões que ameaçarão qualquer um que nade nesse mar eleitoral.;

O movimento Em Marcha! não é oficialmente um partido político e não ocupa cadeiras no Legislativo. O desempenho ruim do Partido Socialista e dos Republicanos na corrida pelo Eliseu não implica necessariamente redução substancial nas suas bancadas. ;Provavelmente, o grupo de Macron negociará a formação do governo, ou haverá a criação de um novo partido, algo que a legislação francesa permite, sem pena de perda de mandato;, observa Martins.



Programas antagônicos

O que propõem os dois finalistas
da eleição presidencial


União Europeia

Emmanuel Macron

Defende a convocação de ;convenções democráticas; nos países-membros da UE depois das eleições legislativas de setembro, na Alemanha, para a definição de um projeto comum. A zona do euro teria orçamento próprio, um parlamento e um ministro de Finanças.

Marine Le Pen
Pretende negociar a saída da França da zona do euro e do espaço Schengen (de livre circulação de pessoas). Depois, planeja convocar um referendo sobre a permanência do país no bloco.

Imigração

Le Pen

Prevê a deportação sumária de criminosos. Quer limitar o ingresso de imigrantes a 10 mil por ano, dificultar a concessão de asilo e vetar a regularização dos estrangeiros em situação ilegal. Defende a suspensão da assistência médica aos que estejam no país há menos de dois anos e o fim do princípio pelo qual filhos de migrantes nascidos em solo francês têm direito automático à nacionalidade.

Macron

Promete fixar prazo de seis meses para o exame dos pedidos de asilo.

Reformas sociais

Macron
Propõe a unificação dos regimes de aposentadoria e a estatização do seguro-desemprego. Pomete suprimir 120 mil empregos públicos, sem afetar hospitais, e abrir vagas para policiais (10 mil) e professores (4 mil a 5 mil). Mantém a jornada semanal de trabalho em 35 horas.

Le Pen
Quer restabelecer a aposentadoria aos 60 anos, manter a jornada semanal de 35 horas e abolir a flexibilizaão das relações de trabalho. Quer mais funcionários nos hospitais e menos na burocracia. Promete 21 mil contratações na polícia e na alfândega.

Educação e família

Macron

Propõe autonomia para contratação de professores pelas escolas e definir zonas prioritárias de educação, por um sistema de prêmios. Quer que os celulares sejam proibidos em sala de aula. Defende o acesso universal das mulheres à reprodução assistida.

Le Pen
Substituiria o casamento entre homossexuais pela união civil e restringiria aos casais estéreis a reprodução assistida. Defende a imposição do uniforme nas escolas.

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