Liberdade em dia de enterro

Liberdade em dia de enterro

A motorista que, embriagada, atropelou e matou ciclista no Lago Norte pagou fiança e foi liberada pela Justiça. Enquanto isso, familiares e amigos da vítima participaram do sepultamento no Cemitério Campo da Esperança

Deborah Fortuna Paula Pires - Especiais para o Correio Walder Galvão*
postado em 25/04/2017 00:00
 (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
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(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )

Enquanto a família de Mônica Karina Rocha Cajado Lopes, 20 anos, pagava a fiança de R$ 5 mil para que ela saísse da prisão, no mesmo horário, por volta das 10h, parentes e amigos se reuniam para dar o último adeus ao administrador de empresas Edson Antonelli, 61, no Cemitério Campo da Esperança. A história da jovem motorista e do ciclista atingido por ela havia se cruzado no dia anterior, na QI 7 do Lago Norte. Ela, em um GM Ônix, dirigia sob o efeito de álcool, depois de sair de uma festa. Ele pedalava pela ciclofaixa quando foi surpreendido pelas costas.

Mais de 150 pessoas estiveram presentes ao velório de Edson. Devido à forte emoção, a irmã da vítima, Marlene, precisou ser levada a um hospital particular. A mulher dele, Rose Antonelli, permaneceu todo o tempo ao lado do caixão, amparada pelos filhos Daniel e Amanda. O sócio de Edson e padrinho de casamento Milton Lagatta, 62, o descreveu como de bem com a vida. ;Era um homem que sabia cuidar da família, carinhoso, generoso, que tinha um casamento estável e amava seus filhos e netos;, resume. Balões brancos tomaram o céu de Brasília ao fim da cerimônia.

Além do enterro do administrador de empresas, a família precisou lidar com outra situação de perda. No domingo, mesmo dia do atropelamento no Lago Norte, a mãe de Edson, Maria José de Oliveira Antonelli, 82, também morreu. A mulher, que morava em Conchas, em São Paulo, não chegou a saber da tragédia. Após o sepultamento em Brasília, parte dos parentes seguiu ontem para aquele estado.

Mônica passou a noite de domingo e a madrugada de ontem detida no Departamento de Polícia Especializada (DPE). A delegada-chefe da 9; Delegacia de Polícia (Lago Norte), Mônica Ferreira Loureiro, explica que a jovem precisou ficar presa por ser suspeita de mais de um crime. ;Se fosse homicídio, ela teria sido liberada. Teve um acúmulo de pena com a embriaguez ao volante. Se fosse só um, ela podia ser solta;, detalha.

Pela manhã, Mônica participou de uma audiência de custódia, após receber o atendimento de três advogados nos últimos dois dias. Com o pagamento da fiança, ela responderá ao processo em liberdade. Um dos defensores dela argumentou que não há elementos para decretar a prisão preventiva, pois é uma ação que apenas assegura o andamento do processo. ;Como ela não vai pôr em risco nada em relação às investigações, não tem fundamento, por ora, mantê-la presa;, alega o advogado Raphael Hosken.

Legislação

Para o especialista em segurança viária Victor Pavarino, a direção sob efeito de bebida alcoólica é um dos principais fatores de risco no trânsito. Ele reforça que não é suficiente apenas uma legislação apropriada, mas também uma fiscalização efetiva para inibir a prática de beber e dirigir. ;Não é necessariamente a frequência ou o valor da cobrança, ou mesmo os rigores da punição, mas a sensação da possibilidade de ser flagrado e prontamente punido que costuma ter efeito na redução da prática;, ressalta.

O especialista em mobilidade urbana José Lobo aponta a ineficência da fiscalização aplicada para conscientizar as pessoas. ;O sistema é fraco, até mesmo o conhecimento das leis é ruim. Muitos motoristas circulam pelas cidades sem conhecer os direitos dos ciclistas;, critica.

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart

Flagrante
Segundo o Departamento de Trânsito (Detran), a motorista que atropelou Edson não foi a única flagrada embriagada durante esse fim de semana no DF. O órgão, em conjunto com a Polícia Militar, autuou 127 condutores por embriaguez. Quatro deles foram conduzidos à delegacia por ultrapassarem 0,3 miligramas de álcool por litro de ar dos pulmões, o que é considerado crime.

"Era um homem que sabia cuidar da família, carinhoso, generoso, que tinha um casamento estável e amava seus filhos e netos;
Milton Lagatta, padrinho de casamento de Edson



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