A voz do povo

A voz do povo

Por Severino Francisco
postado em 25/04/2017 00:00
Eu gosto de conversar com os motoristas de táxi, pois eles são repórteres ambulantes, soltos na cidade 24 horas por dia, de orelhão ligado. São muito bem informados, atilados e críticos. Tomei um táxi. Quando passamos perto do Estádio Mané Garrincha, o motorista pediu a minha opinião e eu comentei que sempre fico imaginando o que seria de Brasília e do Brasil se todo o dinheiro gasto com os elefantes brancos da Copa de 2014 fossem investidos em educação e saúde.

Ao que o motorista replicou: ;Doutor, eles não estão interessados em obras que não rendam dinheiro para roubar. Eles querem grandes obras: estádios, viadutos, BRT. Sem uma pressão muito forte, eles jamais investirão em projetos de educação. Um povo educado não vota em político ladrão;.

Concordei e acrescentei que a situação era complicada no Congresso, pois os políticos que cometeram atos ilícitos estavam com a faca e o queijo na mão, porque roubaram e podem legislar em causa própria, anistiando os crimes em uma penada. Ele disse que gostava muito do Bezerra da Silva e consultou se eu não me importava se ele tocasse alguns sambas. Respondi que não e Bezerra passou a ser a trilha sonora de nossa conversa: ;Malandro moderno, colarinho branco,/só usa bons ternos, não liga pro azar/Dólar na Suíça, mansão à beira-mar/Seu nome é corrupção/pra que trabalhar?/Roubou o dinheiro do povo e vive na tranquilidade./Sua sorte é que vive no país da impunidade;.

O motorista indagou: ;Doutor, como é que a gente vai acreditar nesses políticos para fazer as reformas de que o Brasil precisa? Eles vendem tudo. São capazes de vender o Brasil e ainda pedir troco;. Enquanto isso, Bezerra da Silva castigava com a voz em segundo plano: ;Se vocês estão a fim de prender o ladrão/podem voltar pelo mesmo caminho/O ladrão está escondido lá embaixo/atrás da gravata e do colarinho;.

E o motorista interrogava, indignado: ;Que moral eles têm para que a gente acredite neles?; Assenti, realmente, a esta altura, fica difícil a gente botar a mão no fogo por esses políticos. Do alto-falante do carro, a voz de Bezerra da Silva soava cheia de cadência: ;Vejo que essa previdência/não tem competência pra ser social/o trabalhador adoece e morre na fila do hospital/enquanto uma pá de aspone/que dorme e que come mamando na teta./E os pc;s na mamata sempre fazendo mutreta,/roubando dinheiro do povo e mandando pra Suíça/Na maior careta./Trabalhando já passo fome,/quem dirá quando me aposentar;.

Disse a ele que, se a Lava-Jato não conseguisse estancar a roubalheira e impor alguma civilidade, o país retrocederia até a condição de uma república de bananas, sem nenhuma lei democrática, a não ser a lei do mais forte. O motorista comentou que a turma estava furiosa. Cheguei a meu destino, me despedi, mas ainda deu tempo de ouvir Bezerra da Silva se evolando no meio da noite brasiliana: ;Canalha, tu és um tremendo canalha. Comprou fazenda e mansão/e o povo na miséria comendo migalha./ Veja bem seu canalha.../Está livre a poder de propina/porém a justiça divina/não falha/veja bem seu canalha. Viver na moleza é muito bom/quero ver você encarar uma batalha/vai trabalhar, canalha!”

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