As origens

As origens

» ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 30/04/2017 00:00
Os tempos mudam, mas os políticos não percebem. O presidente Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho, a famosa CLT, em 1; de maio de 1943, no Estádio do Vasco, em São Januário, no Rio de Janeiro, diante de milhares de trabalhadores. Foi uma tremenda festa. A partir daí, no Brasil, o dia 1; de maio passou a requerer comemorações oficiais todos os anos. O fascismo empolgou boa parte dos italianos. Assim como o nazismo despertou os alemães. Itália e Alemanha eram países mergulhados em profundas crises entre as duas grandes guerras. Hitler debelou a inflação, abriu estradas maravilhosas, colocou os trens no horário, incentivou a produção de automóveis e a indústria em geral. Criou empregos. Depois, partiu para o delírio. Influenciou o mundo na época. Hoje é palavrão apoiar algum aspecto do nazismo, mas, naquela época, não era.

Muita gente se empolgou com o modelo econômico construído por Benito Mussolini. Ele criou um banco de fomento que, no Brasil, teve a réplica chamada de BNDES. Criou uma empresa de petróleo, em tudo semelhante à Petrobras. Incentivou as corporações de ofício, os sindicatos, e produziu sua carta do trabalho. O Brasil de Getúlio Vargas oscilou, no ápice da Segunda Guerra Mundial, entre apoiar os aliados ou os países do eixo. Utilizou seu prazo, até o último minuto, para se decidir pelos norte-americanos, depois de se encontrar com Roosevelt na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

O modelo do fascismo se integrou na fórmula brasileira de conduzir a própria economia. Há um banco que financia investidores com juros subsidiados. E empresas estatais para todos os gostos ; elas não têm custo. O governo paga as contas. Ou seja, o cidadão arca com os prejuízos. A legislação trabalhista brasileira é curiosa. Sua origem está na década de trinta do século passado. Mas os argumentos de hoje são os mesmos de ontem. O desemprego no Brasil, produzido pelas gestões petistas, é avassalador. Fundamental é criar ambiente propício para que investidor volte a criar empregos. O debate é uma discussão de surdos. Parlamentares querem apenas gritar palavras de ordem.

Foi assim em 1965. Quem viveu aquele período, do governo militar, vai se lembrar. Naquela época, a legislação trabalhista determinava que o empregado, depois de 10 anos de serviço, se tornava indemissível. A consequência é que as empresas demitiam qualquer trabalhador que chegasse a nove anos de trabalho. A solução foi trocar essa chamada garantia por dinheiro. Assim, Roberto Campos criou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que, recentemente, foi vítima de assalto sistemático e continuado pelo pessoal do PT. Neste ano, as contas inativas foram liberadas, o que ajudou muita gente a quitar dívidas.

A discussão sobre a reforma trabalhista chega a ser risível. A oposição utilizou, à farta, os recursos do chamado kit de obstrução e passou uma tarde e noite fazendo pequenas chicanas para evitar a discussão. Essas pequenas discussões não revelam nada de construtivo. A esquerda brasileira perdeu seu objetivo. O discurso ficou velho, ultrapassado e nostálgico. Não percebeu que as referências se modificaram, não só no Brasil, mas no mundo. É tempo de mudar. E reinserir-se no mundo do século 21.

O período petista entrará para a história do Brasil como um momento infeliz. Os trabalhistas poderiam ter criado um centro parlamentar dinâmico como Adolfo Suarez construiu na Espanha. Aqui, foi tempo perdido. Ocorreu uma discussão retórica, tola, com argumentos dos anos 1970, da época da Guerra Fria. Dona Dilma não é a única responsável pela tragédia. As lideranças se perderam entre a retórica ultrapassada e o dinheiro fácil. Pareceu uma reprodução fora de tempo do ocorrido no Leste Europeu depois da queda da União Soviética.

Fernando Gabeira disse que sonhou o sonho errado. Ele compreendeu a extensão do problema. Mas as lideranças petistas não dão sinais de que tenham entendido a dimensão de seu equívoco, nem as razões do descalabro. É pena. Quem não aceita a realidade tende a repetir os erros. O desemprego é a mais cruel das punições ao cidadão. Foi isso que a administração Dilma entregou aos brasileiros. O Congresso, contudo, assumiu posição menos emocional. Aprovou projeto discreto para evitar excesso de autoridade e admitiu o fim do foro privilegiado. A reforma partidária passou. De repente, os fatos entraram no trilho de uma solução negociada em favor do país.

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